Ontem, eu estava no supermercado em Sousas quando fui surpreendido por alguém me chamando:
— Oi, Dr. Roberto. Como vai? Há quanto tempo… Lembra de mim?
— Claro que me lembro. É o Vinicius. Como vai? Como está a Antônia? E o Pedro? E suas irmãs?
Façamos, então, as apresentações dos personagens.
Vinicius, Pedro e duas meninas são filhos da Antônia e de um marido que abusava das crianças. Uma família pobre, católica praticante, moradora da periferia de Sousas, parda — um certo retrato de nosso país, com suas dores, contradições e resistências.
Eram meus pacientes no Centro de Saúde de Sousas.
Criei tantos vínculos com a família que os pais — até aquele momento o pai ainda não era conhecido como abusador — me pediram para batizar o Pedro, na época com uns três anos de idade. Relutei, até por ser ateu, mas eles insistiram tanto que acabei aceitando. Os pais, baianos, esperavam que, como padrinho, eu tivesse mais responsabilidades com o Pedro. Para os baianos raízes, padrinho é quase um segundo pai.
Eu tinha certeza de que isso não aconteceria como eles imaginavam e, como de fato ocorreu, acabei me distanciando deles com o tempo.
Mas antes que isso acontecesse…
Quando a mãe descobriu que o pai abusava das crianças, ela o denunciou. Durante algum tempo, enquanto se desenrolava a separação, para que as crianças não fossem para abrigos, elas foram ficar com familiares. O Pedro, por ser meu afilhado, ficou conosco, morando por algum tempo em nossa casa.
O tempo passou. Antônia separou-se do marido, Pedro voltou para sua casa e, durante algum tempo, ainda mantivemos certa proximidade.
As crianças eram uma graça. Educadas, brincalhonas, aparentemente sem marcas visíveis causadas pelo pai e pela separação — embora a gente saiba que certas dores nem sempre aparecem de imediato, nem se revelam facilmente aos olhos dos outros.
Vinicius, em especial, era muito diferente da média. Muito inteligente, muito bonito e cheio de sonhos para o futuro: queria ser dançarino de balé clássico e percorrer o mundo. Todos nós o incentivamos: eu, Adonai e, surpreendentemente, a própria mãe. Confesso que imaginei que, por sua criação religiosa e conservadora, ela talvez não o apoiasse numa escolha que tantos ainda tratam, de forma preconceituosa, como “coisa de mulherzinha”. Mas ela apoiou. E isso, naquele contexto, dizia muito.
Durante algum tempo, soube que Vinicius frequentou uma escola de dança.
Depois fomos nos afastando. Eu os via de vez em quando na rua, cumprimentávamo-nos e conversávamos um pouco.
Fiquei alguns anos sem vê-los. Por informações colhidas aqui e ali, sabia que Vinicius tinha desistido da dança e que ele e Pedro haviam aberto um pequeno negócio para vender refeições preparadas por eles mesmos.
Ontem foi dia de colocar as informações em dia.
Vinicius, muito bonito — poderia ser modelo —, aparentando uns 25 anos, elegantemente vestido em trajes esportivos, com um belo lenço cobrindo a cabeça, alguns brincos nas orelhas e falando um português de fazer inveja aos mais letrados, me contou que havia feito alguns cursos: ensino médio completo, curso técnico de culinária e curso técnico de manejo florestal, agrofloresta e permacultura.
— E a dança, desistiu? — perguntei.
Respondeu que sim. Percebeu que não teria futuro com ela, embora continue gostando muito de dançar.
Disse-me que sua paixão atual é a permacultura e a agrofloresta.
Explicou-me:
— Permacultura é um termo originado do inglês permanent culture. Mas o que interessa mesmo é o que está por trás disso: criar assentamentos humanos que tenham cuidado com a terra, com as plantações, e que possam produzir de tal modo que se limite o consumo e se distribuam os excedentes. Agrofloresta é um tipo de plantio que imita uma floresta natural, mas com foco em plantar diferentes tipos de espécies para alimentar as pessoas. Então, faz muita conexão com a permacultura.
E continuou:
— Mas, infelizmente, não vivo disso. Atualmente moro em um sítio cujo dono me deu um pedaço de terra para fazer minhas experiências com agrofloresta. Além disso, ele me paga para ser caseiro. Como é pouco, vivo principalmente de cozinhar para as pessoas em festas, reuniões de amigos e coisas assim. Faço churrascos, pratos especiais, bolos, doces, e vou me virando. Vivo como empreendedor de mim mesmo.
A expressão ficou martelando em mim: empreendedor de si mesmo. Bonita e dura ao mesmo tempo. Bonita porque fala de autonomia, criatividade e esforço. Dura porque, muitas vezes, esconde a ausência de direitos, de estabilidade, de proteção e de horizonte mais seguro.
Em seguida, ele me perguntou se eu continuava petista. Quis saber também se eu havia me candidatado mais alguma vez.
Respondi que sim, continuava petista, mas que nunca mais havia me candidatado.
Aproveitei e lhe perguntei:
— E você, votou em quem nas últimas eleições presidenciais? Vai votar em quem na próxima?
— Votei no Lula, doutor. Votarei nele na próxima também. Não dá para votar em bolsonaristas, né? Mas confesso que não me entusiasmo. Esse terceiro governo foi frustrante para nós, jovens. Apesar de não faltar emprego, são todos muito ruins: salários baixos, trabalhos ruins… Está difícil ser empregado no Brasil. Apesar da insegurança, é melhor ser empreendedor. O maior problema é que é “nós com nós mesmos”. Vive-se na maior insegurança, mas sempre na esperança de que o negócio vai deslanchar e de que viveremos um pouco melhor. Diria que é a minha maior esperança no momento.
Provoquei-o:
— É verdade. Mas o que o governo Lula poderia ter feito a mais? Tem um monte de coisas: Pé-de-Meia, melhorias no SUS, aumento real do salário mínimo. Agora há a luta para mudar a escala 6×1. Não fez mais por causa desse Congresso inimigo do povo…
Ele respondeu:
— Concordo, mas isso afetou pouco a maioria de nós. Também não sei exatamente o que poderia ser feito, mas fica a sensação de “nada feito” e de um futuro de muita insegurança, sem certeza de melhora na vida.
Ouvi aquilo com atenção. Não era uma fala antipolítica, nem uma adesão fácil ao discurso conservador. Era mais difícil do que isso. Era a fala de um jovem pobre, inteligente, trabalhador, sensível, que escapou de muitas coisas, construiu caminhos possíveis, mas continua vivendo num país que lhe promete pouco ….Tá faltando um sonho….O paradoxal é que a permacultura e agrofloresta, pelo que aprendi com ele, é sonho que se realizado pode mudar o mundo. Ele sonha com isso, mas não parece acreditar que acontecerá… complexo! Para mim, que sou avô, vivo a mesma sensação em relação ao futuro: que será dessas crianças? No passado tínhamos a certeza que se estudassem estariam melhores que os pais…Hoje não sinto essa segurança… Falta sonho ao Vinicius…. Falta-me sonho para eles…
Vinicius entende, com clareza, que há diferenças importantes entre os projetos políticos, mas também sente, no corpo e na vida concreta, que essas diferenças nem sempre chegam com força suficiente à mesa, ao aluguel, ao trabalho, ao futuro.
Que fazer?