Estava hoje, domingo de abril, com Adonai, fazendo exercícios numa academia ao ar livre, na pista de Sousas.
Veio usar os equipamentos um rapaz pardo, de pele escura, mas não preto, de uns trinta anos, com quem já havíamos conversado ali mesmo, em uma ocasião anterior.
Cumprimentou-nos educadamente:
— Bom dia, como vão? Já vi vocês outras vezes. Pelo jeito, gostam de fazer exercícios e caminhar.
— Sim, gostamos mesmo. E é necessário para manter uma boa saúde.
— Verdade. Faz bem para o corpo e para a alma. Vocês andam todos os dias?
— Sim, todos os dias, exceto quando algo nos impede, o que é raro. E você?
Ele respondeu:
— Bem que eu gostaria, mas não posso. Só aos domingos mesmo. Trabalho nos outros dias, mas esse eu tiro para fazer as coisas de que gosto. E uma delas é vir a Sousas caminhar.
— Não mora aqui? — pergunto.
— Não, moro no Campo Grande. Longe para dedéu, mas adoro vir aqui.
— Só no domingo? Jornada 6×1? — provoco. — Mas isso vai mudar. Lula já encaminhou projeto de lei e duvido que a Câmara não aprove. Pelo menos dois dias por semana você poderá vir caminhar…
— Ih, não é isso. Sou empreendedor — responde, com ironia, e dá risada. — Trabalho por conta.
Fico curioso:
— Não arranjou emprego? Faz o quê?
— Não é isso. Emprego não está faltando. O problema é o salário e o preço das coisas… Uma coisa não bate com a outra. Sobra mês no salário — brinca. — Não dá para pagar aluguel, comida pela hora da morte, roupas… Resolvi vender coisas no centro da cidade, perto dos pontos de ônibus mais cheios de gente. É melhor do que ser empregado.
— O que você vende?
— Pipoca, doces, chocolates, refrigerantes, água… coisas desse tipo. Vende bem nos horários certos: perto do almoço e no fim do dia. Dá para virar legal. Às vezes vendo dentro dos ônibus também.
— Para vender dentro dos ônibus ou perto dos pontos, precisa ter licença da Prefeitura? — pergunto.
— Dizem que precisa… Nunca fui atrás. Imagino que se deve pagar uns mil reais para ter a carteirinha. Também nunca me pediram. Para vender dentro dos ônibus, só peço autorização para o motorista. A maioria deixa.
Não perco a oportunidade e provoco:
— O governo Lula está fazendo muita coisa para o pobre, não está? Bolsa Família, Pé-de-Meia, isenção do imposto de renda, renegociação de dívidas, emprego não falta, teve melhoria do salário-mínimo, queda da inflação…
— É, dizem…, mas nada disso serve pra mim. Para mim, não mudou nada. Tudo igual. Só querem roubar. Bolsonaro tem a vantagem de cortar impostos e facilitar para quem quer ser empreendedor.
Sua resposta me desanima.
Quase lhe pergunto em que “cortar impostos e facilitar para quem quer ser empreendedor” o afetaria concretamente. Mas me dá uma certa preguiça de ouvir a resposta. Será que ele alimenta a esperança de ter um supermercado um dia? Ou será apenas mais uma daquelas frases que circulam por aí, grudam na cabeça das pessoas e passam a explicar uma vida inteira de dificuldades?
— Vai votar no Flávio? — pergunto.
— Não. Vou votar nulo. Não acredito na política. Como já disse, é tudo igual. Vou continuar me virando e sobrevivendo.
— Tem filhos? — pergunto.
— Não. E não quero ter. É doido pôr filho nesse mundo…
Ficamos ali, por alguns instantes, sem muito mais o que dizer.
Ele era simpático, educado, trabalhador. Não parecia ressentido, um “pobre de direita” …. Parecia, antes, cansado e ao mesmo tempo conformado. Cansado de trabalhar muito, ganhar pouco, viver sem garantias e ainda ter que se convencer, todos os dias, de que é “empreendedor”. Conformado, porque a ele parece que nada vai mudar, ganhe quem ganhar…
A palavra “empreendedor” soava estranha. A ele acendia a esperança para uma existência marcada pela necessidade e dificuldades. A ela parecia atribuir uma força para sua liberdade. Ele não era forçado a trabalhar 6 x 1. Mas … paradoxalmente trabalhava 6×1. E, pior, não tinha férias, proteção, direitos, previsibilidade.
E talvez seja esse o ponto mais complexo e, por que não, dolorido:
Ele não se reconhece como trabalhador explorado. Também não se reconhece como pobre beneficiado por políticas públicas. Não acredita no Estado.
Uma pergunta para a qual não tenho resposta: vender pipoca, doces, refrigerantes e água perto dos pontos de ônibus pode ser mais que apenas “se virar”? Embora ele não acredite no Estado, é possível que o governo consiga formatar alguma política com algum reconhecimento, algum apoio, algum futuro para esses empreendedores, e para todos e todas, e para a classe trabalhadora? É possível um mundo onde se trabalhe menos, que se possa curtir o ócio produtivo e não só respirar um pouco aos domingos?
Ou, dito de outra maneira, “Outro Mundo é Possível”?