Mal terminou a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), e o candidato Flávio Bolsonaro, em sua propaganda na TV já tentou “colar” o ministro do STF Alexandre de Morais na candidatura Lula. Sua empolgação no discurso, e a coincidência de ter sido André Mendonça, ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro e atual ministro do STF (nomeado por Bolsonaro para o cargo) que jogou aos quatro ventos, 15 dias após o início da propaganda eleitoral em rádio e tv, as mensagens que teriam sido enviadas por Daniel Vorcaro, do banco Master, para o ministro Alexandre de Morais, instalam uma dúvida razoável: qual é o grau de participação da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos (EUA), em todo esse tumulto às vésperas da eleição presidencial no Brasil?
Essa dúvida é razoável, porque o presidente dos EUA está intervindo no processo eleitoral brasileiro desde o julgamento da tentativa de golpe de estado em 8 de janeiro de 2023, com tarifas absurdas sobre produtos brasileiros importados, e retaliação mais absurda ainda contra ministros do STF e do governo federal e até contra familiares seus. A atuação dos EUA na Venezuela desde sempre, intensificada a partir de 3 de janeiro de 2026, confirma a disposição do governo Trump, manifestada reiteradas vezes em discursos dele próprio, do vice, e do secretário de Estado Marco Rubio, de que a América Latina lhes pertence.
Quem faz o “trabalho sujo” dos EUA no Exterior, desde 1947, é principalmente a CIA, que atua em golpes de estado, assassinatos de lideranças de esquerda, promoção de guerrilhas mercenárias, “lawfare” (guerra jurídica, como a Lavajato) e, mais recente, os esquemas bandidos de fraudes em campanhas eleitorais, que possibilitaram as vitórias da extrema-direita na Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Colômbia e Equador. Fernando Cerimedo, a peça agora conhecida desse esquema, também atuou nas eleições no Brasil, comprovadamente em 2022, para a campanha de Jair Bolsonaro. Segundo o que tem sido divulgado pela mídia, ele é parceiro de Flávio e Eduardo Bolsonaro – a quem Daniel Vorcaro, do banco Master, repassou muitas dezenas de milhões de reais.
O ex-ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, André Mendonça, não teria condições de, sozinho, armar todo esse tumulto, que pode inclusive lhe custar o cargo no STF. A fúria com a qual o ministro Gilmar Mendes foi para cima dele, na sessão do plenário do STF dia 15/09 à tarde, confirma o tamanho do estrago produzido por Mendonça no próprio tribunal, às vésperas da eleição presidencial no Brasil. Como um rato sozinho não pare uma montanha, terá a CIA ajudado nessa empreitada? – Se sim, de quais maneiras?
Uma das ações do ministro Mendonça que ligou o alerta relativo à CIA foi a tentativa de demissão dos diretores da Polícia Federal (PF) – o Geral e o de Inteligência. Tornar a PF acéfala facilita muito o trabalho de quem está agindo nos bastidores para produzir e alterar provas, como é o caso das agora famosas “mensagens” do Vorcaro para o celular que seria do ministro Alexandre de Morais.
Este alegou ontem que as tais mensagens, tornadas verdade absoluta pela mídia interessada, graças a providencial “vazamento” – antes mesmo de serem de conhecimento dos demais ministros do STF –, elas seriam apenas “notas” (rascunho), e que não há prova que tenham sido efetivamente enviadas, nem tampouco há as respostas que teriam ensejado.
Quando houve a repercussão das tais mensagens na TV, faltou agregar um fato decisivo: Vorcaro está preso, seu pai idem, e seus cúmplices também. E as investigações estão chegando em todos os demais envolvidos, como os diretores do Banco Central e do Banco Regional de Brasília (BRB).
Enquanto o tumulto no STF cresce, Flávio Bolsonaro continua o seu discurso de que ele não tem nada a ver com tudo isso, que o financiamento do filme foi com “dinheiro privado” e por aí vai. Conta com o tempo a seu favor e a prática familiar de mentir, mentir o tempo todo. Até porque são as suas mentiras, compartilhadas milhões de vezes, que sustentam a fé e os argumentos de seus eleitores e eleitoras. Estão aí os seus índices nas pesquisas para provar quanta gente continua acreditando ser verdade exatamente o contrário do que os fatos atestam.
E haverá fatos de sobra nos próximos dias, que inevitavelmente tumultuarão ainda mais o processo eleitoral. A começar pelo fato que o ministro Kássio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declarou ontem, no início da sessão no STF, que nem ele nem o seu filho têm qualquer relação com Vorcaro. Entretanto, segundo o que tem sido divulgado – e que talvez seja comprovado na análise de mensagens dos celulares apreendidos, de Vorcaro e seus cúmplices – ocorreram alguns episódios que contradizem o ministro. Idem no caso do ministro Luís Fux, e essa seria a razão principal para a seletividade na liberação das mensagens por André Mendonça.
Tamanha confusão jurídica, policial e política tumultuou o processo eleitoral. Nesse momento, faltando pouco mais de duas semanas para o primeiro turno, não interessa quem está certo e quem tem culpa no cartório, e sim a quem beneficia tudo isso, na disputa presidencial em curso. Depois, com tempo, é provável que realmente se saiba o que realmente ocorreu, quem fez o que, e até o papel da CIA, secundário ou principal, nessa história toda.
E aparentemente, quem está se beneficiando desse tumulto todo é o candidato da extrema-direita, por mais paradoxal que seja a situação, já que ele e os seus estão até o talo na relação com Vorcaro, emendas parlamentares e tudo o mais que a Polícia Federal já identificou. Ainda assim, o cinismo supremo do candidato Flávio Bolsonaro é tão grande, que ele continua discursando como se fosse um paladino da justiça e da luta contra a corrupção.
Quem tem que se explicar são eles. Quem está mais sujo que pau de galinheiro são eles. Tudo o que já foi comprovado até agora é munição de sobra para derrotarmos mais uma vez a extrema-direita brasileira e estadunidense. Até o final de setembro a PF tem que conseguir bloquear a atuação da CIA e de Cerimedo, identificar e apreender as “granjas de bots” que espalham milhares de mensagens falsas para serem compartilhadas.