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Lula pode ser derrotado sim, mas também pode vencer com uma virada histórica

No primeiro turno destas Eleições, fizemos uma campanha sem foco, com uma mensagem dispersa. assisti os programas eleitorais de F. Bolsonaro e de Lula e notei isso a algumas pessoas em privado: eles batem com foco e nós estamos dispersos. não respondemos a uma pergunta fundamental: “que Brasil queremos daqui a 4 anos?” — é isso que muita gente nos questiona, inclusive quando coloca a questão sobre a idade do Lula: é sobre o futuro. precisamos saber formular e levar para o segundo turno essa pergunta: “que Brasil daqui a 4 anos?” — o que isso significa na vida das pessoas? fizemos uma campanha generalista e voltada ao passado, centrada no legado de Lula, “the last dance”, ignorando o desgaste que nosso Governo enfrenta por diversos motivos (interferência brutal dos EUA, ataques crescentes da classe dominante através da imprensa e da Globo, e nossos próprios erros como o aperto do “arcabouço fiscal” e a política de juros suicidária de Campos Neto e Galípolo).

deveríamos desde o início ter assumido a dificuldade do cenário político e ter feito uma campanha como se estivéssemos atrás nas pesquisas e não na frente — algo que repeti tantas vezes em nossas reuniões. na verdade, partimos para esta campanha com desvantagens que foram desvalorizadas e que se tornaram inegáveis no domingo. agora teremos que fazer essa campanha de desafio, batendo forte no outro lado, mas correndo atrás do prejuízo e enfrentando o efeito psicológico de que Lula pode ser derrotado, o que joga a favor deles: a ideia de que “vamos derrotar o Lula” apela ao sentimento de uma forma que ultrapassa qualquer preocupação mínima em apresentar um projeto, permitindo a F. Bolsonaro esconder o que vai fazer se vencer a Eleição. o que nós precisamos fazer é tornar isso em argumento de sentido inverso: o que acontece se Lula for derrotado? ou seja, precisamos tirar o foco da figura do presidente e colocar o foco na política: o que significa uma derrota de Lula e o que significa uma vitória de Lula? esses sentimentos de urgência e de perigo, junto com a consciência de disputa e de escolha, devem ser instrumentos de mobilização de votos e apoios.

a campanha não pode continuar com discursos ou promessas abstratas, algo que foi corrigido por movimento do próprio Lula já em plena campanha eleitoral, com a força política da proibição das bets. “o Brasil está pronto pra mais”— mas para mais o quê? que problemas as pessoas enfrentam e como vão ser resolvidos? além das propostas, e mais do que enunciar princípios como “democracia e justiça social”, precisamos de uma missão: qual o sentido de alguém que está em descrédito com a política, ou que acha que Lula e Bolsonaro são iguais, ir votar em Lula? o que a pode mobilizar para votar em Lula no segundo turno?

precisamos ter a humildade de escutar as pessoas, suas angústias e suas frustrações. precisamos falar a verdade: este Governo não foi o mais bem sucedido de nossos Governos, em boa parte porque contexto político é muito mais difícil, começando pela configuração do Congresso. mas precisamos explicar que entendemos este “sinal amarelo” do primeiro turno e que vamos dialogar para resolver e melhorar — um compromisso que o “outro lado” nunca fará. e precisamos fazê-lo com credibilidade, de modo que as pessoas acreditem na seriedade do nosso compromisso. para isso, é fundamental pontuar na disputa o que cada candidato defende em matérias como a 6×1, as bets ou o “tesouraço” nos orçamentos de áreas como Saúde e Educação. é necessária uma maior clarificação política dos termos da disputa.

e não adianta pensar que, se os bolsonaristas ganham porque estão nas redes, nós devemos concentrar tudo no digital. temos que estar nas redes e melhorar a comunicação digital, agregando influenciadores, sim, mas as redes têm limitações com seus algoritmos que nos prejudicam. por isso, a presença digital tem que estar relacionada e articulada à presença física. temos que estar nas ruas e conversar com as pessoas concretas, mas essencialmente temos que mobilizar milhões dos que votaram em Lula a conversar com seus amigos e familiares. não vão ser as nossas carreatas ou comícios que vão conseguir virar votos (são importantes para dar direcionamento e ânimo ao nosso lado): é a proximidade, a relação familiar, o argumento que vem de quem as pessoas confiam. por isso, precisamos de uma mensagem mais centralizada e focada e de uma campanha mais descentralizada e de base, sem deslumbramento, mas também sem desânimo. Lula pode ser derrotado sim, mas também pode vencer com uma virada histórica.

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