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As jornadas de junho de 2013 e o segundo turno das eleições de 2026

Não fomos capazes de avaliar as razões que levaram a dimensão das jornadas de junho de 2013, a antessala do fortalecimento da direita, rapidamente apropriado pela ultradireita, que emergiu com força capaz de mobilizar massas e se constituir em força hegemônica do conservadorismo, que dura até os tempos atuais. No sentido contrário precisamos ser capaz de avaliar as razões que mobilizaram milhões em todo país e, como fez a direita, extrair todas as consequências disso, erguer um poderoso BLOCO de ESQUERDA, que supere e renove ideários, métodos e pessoas que vinham na liderança formal da esquerda atual. Um bloco que tenha com uma das tarefas imediatas isolar e destruir politicamente o bolsonarismo, a fuça do fascismo.

Todos compreendemos o papel dos homens na história, que foram capazes de conceber e/ou expressar e liderar mudanças em seus tempos. No Brasil tivemos Luiz Carlos Prestes, expressão principal do movimento tenentista, que ao aderir ao marxismo em 1930 e ao Partido Comunista em 1934 elevou o então pequeno partido a ter uma dimensão nacional, a incorporar os principais intelectuais brasileiros, o mundo da cultura e a deitar importante influência no movimento operário. Sem Prestes e o movimento que simbolizou não teria Getúlio, principalmente o introdutor das mudanças que realizou, que superou o conhecido aforismo de Lampeduzza, autor do il Gattopardo, por erguer as bases de um estado nacional e da industrialização. Getúlio foi o grande político a representar os interesses da classe burguesa, mesmo que por ela combatida, como na tentativa golpista da elite paulista em 1932, na sua deposição pelo golpe de outubro de 1945 e depois no seu segundo governo, finito com seu suicídio em agosto de 1954. Sem Getúlio não teríamos o processo de industrialização onde Lula surge como a grande liderança que soube representar seu tempo, o da luta contra a ditadura,

pelos direitos dos trabalhadores e liderar a fundação do PT. Lula torna-se o primeiro e único representante, até o momento, vindo do povão, da mais pobre raiz da sociedade, do que hoje chamam de classe E.

Pelas mais variadas razões o PT e a esquerda brasileira em geral, não conseguiram compreender o significado, para um país como o Brasil, um operário, de um partido de esquerda ser eleito presidente. Não estivemos à altura como analistas políticos, intelectuais e principalmente dirigentes partidários para responderem às necessidades que se impunham para prosseguir em direção às mudanças, uma atualização das chamadas reformas de base, em curso no governo João Goulart, interrompidas com o golpe de 1964.

Não conseguimos ultrapassar o ato conciliatório de governar, melhorando muito para o povão, mas sem arriscar a confrontar os interesses das classes dominantes que impediam e impedem reduzir as desigualdades na renda, nos bens, na forma de viver, de trabalhar, de sonhar. Sem introduzir transformações econômicas, sociais e culturais alimentadas e prometidas durante toda a luta contra a ditadura, e em boa parte expressa na Constituição de 1988, as jornadas de 2013 representaram parte do desencanto, a democracia estava com seu alcance limitado, constrangida. E governos como os da prefeitura de São Paulo, responsável por acender o rastilho de pólvora e o dirigido pela presidenta Dilma Rousseff que não conseguiu assimilar aqueles acontecimentos, não sendo assim capaz de alterar o modo de governar culminando com o golpe que levou à sua deposição.

O segundo turno deste ano, 2026, revelou um movimento em sentido oposto, pois de natureza política democrática nacional, de um BASTA, de necessidade de interditar o ideário expresso e representado pelo bolsonarismo – preconceituoso, racista, misógino, anti-trabalhador, violento, corrupto, ditatorial, entreguista, golpista. Lula, por sua liderança, sua origem, seu comprometimento com os debaixo foi o estuário do

movimento, era o rio a receber os afluentes de todos os descontentes amortecidos entre os jovens, os velhos, os intelectuais, as mulheres, as minorias. Representou e representa o caminho para recuperar o compromisso que a árdua luta contra a ditadura prometia – um outro país. Os milhões de jovens que foram os responsáveis pela virada iniciada em 05 de outubro pelos estudantes de Niterói, não são lulistas, mas viram nele, na sua reeleição a única possiblidade de derrotar a ultradireita e tudo o que ela representa. Não foram os partidos de esquerda os primeiros a agir no dia seguinte ao primeiro turno, foi a moçada e na sequencia imediata a campanha animada e coordenada digitalmente pelo combativo Janones.

Este quarto governo de Lula não pode decepcionar. E se confirmadas forem as manifestações do Presidente em seus discursos na noite da vitória, em 25 de outubro, temos esperança que as lições foram apreendidas e que nada é impossível de mudar. Teremos outras políticas e modos de governar, derrotando o bolsonarismo, e construindo um outro Brasil.

São Paulo, 02/11/2026

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