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Pensar transformação sem agenda é como imaginar a Revolução Russa sem o famoso “paz, pão e terra”.
Jessé Souza lançou Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la (Civilização Brasileira, 2025). A depender da religião da pessoa, os que acreditam que morto ressuscita apelam para uma única saída: orações. Jessé soma-se a Vladimir Safatle nessa empreitada. Talvez nenhum dos dois tenha atentado que as palavras “morte” e “ressurreição” são meio fortes para serem invocadas, a não ser que a pessoa tenha credenciais suficientes no campo do ocultismo ou da parapsicologia.

Se quisessem prescrever alguma farmacologia do mundo dos vivos, seria bom que eles reconhecessem que o moribundo tem ao menos alguns sinais vitais. Todavia, o que ambos têm feito, em clima de velório, é rogar reiteradamente que um “espírito” se aposse desse corpo funéreo a que chamam de esquerda. Se a esquerda não é mais um ser vivente, ela só pode ser o espectro de um campo político idealizado que ronda a cabeça desses dois intelectuais.
Soube da notícia do novo livro de Jessé Souza pela entrevista que ele concedeu recentemente a O Globo (28 de dezembro). Jessé decidiu nos brindar com um coquetel que mistura frases bombásticas, platitudes e equívocos. Logo de início, ele afirma que o PT se conformou em ser o “plano B da elite paulista” e que oferece apenas um “docinho aos pobres para garantir a ordem”. Sim, algo que lembra a turma de intelectuais progressistas que, vinte anos atrás, criticava o Bolsa Família como política compensatória.
Curioso que esse plano B elitista inclui agora a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Mais curioso ainda é que a elite paulista está saboreando e deglutindo sem reclamar um docinho de jiló que prevê a elevação de alíquotas de imposto dos mais ricos para permitir essa isenção aos mais pobres. Não sei como O Globo não percebeu que ali, na entrevista, se estava diante de um furo espetacular de reportagem sobre uma inédita benevolência dos farialimers. Merecia manchete de capa.
Uma outra frase de Jessé dá título à entrevista: “A esquerda entra em 2026 sem direção clara para o futuro”. E segue adiante: “A esquerda vai para 2026 sem direção. Para além do Lula, não sabe quem é.” Lula sabe porque “a luminosidade de Lula” é única. Assim falou Zaratustra! Uma pausa para a reflexão: a esquerda não sabe, só o Lula sabe? Então, Lula sabe? Ufa! Que ótimo! Pensando bem, não tem nada de ótimo nisso. Lula, seu luminoso egoísta! Conte logo qual é o caminho! Só você e Jessé sabem? Qual o sentido desse segredinho? Fiquei confuso.
Jessé nos informa que “o governo entra 2026 atento ao cotidiano e a seus temas urgentes— segurança pública, programas de renda, impostos— mas vazio nas ideias”. Quem diria? A isenção de imposto de renda vai estar universalizada para os pobres e a classe média baixa (85% da população), mas isso ainda não é sequer uma ideia. Quer dizer que não teve batalha de ideias nem disputa ferrenha de narrativas e isso passou numa boa? Só há uma explicação possível para esse milagre: a benevolência da Faria Lima contagiou o Centrão nesse plano B e, de repente, não mais que de repente, isso foi aprovado naquelas votações do Congresso, na calada da noite. Aleluia!
E que tal a agenda do fim da jornada 6 x 1? E a ideia… perdão, proposta de tarifa zero? Também devem ser “só” temas do “cotidiano” e “urgentes”, mas não ideias, certo? Pois é. Essas duas agendas históricas da esquerda, encampadas como prioridades do governo para 2026, são assuntos mundanos demais e não têm nível suficiente de abstração para serem dignas da análise, do diagnóstico e do prognóstico de uma entrevista do Jessé.
Ele não cita uma única vez qual é sua agenda alternativa para o país, seja para o agora (eleições de 2026), seja para o que ele chama de “futuro”, que ele situa… nas eleições seguintes, 2030. Nada como alguém que vê longe.
Pensar transformação sem agenda é como imaginar a Revolução Russa sem o famoso “paz, pão e terra”. Jessé talvez prefira a Revolução Francesa e seus lemas magnânimos de liberdade, igualdade e fraternidade. Isso sim que era revolução! Na verdade, o que os revolucionários franceses queriam mesmo era bem menos abstrato: abolição da servidão e dos privilégios, reforma agrária e uma república laica em que o Estado assumisse funções públicas que até então eram privilégio da nobreza e da igreja.
O jornalista pergunta: “A justiça tributária pode ser uma arma importante para a esquerda?” Jessé responde: “Sim”. Outra pergunta: “O discurso em torno da soberania nacional seguirá importante em 2026?” Novamente, a resposta é “Sim”. Ou seja, em dois temas cruciais a qualquer país (soberania e impostos), está tudo no rumo certo, mas a esquerda morreu, certo? Mais uma vez, o mistério: quem encampou essas lutas, além de Lula, o luminoso solitário?
Quando instado a falar em segurança pública, Jessé solta sua ideia mais original: “É preciso defender o endurecimento na punição de crimes específicos… Não há outra saída para a esquerda a não ser andar nesse fio de navalha”. Notem: a grande solução do Jessé para a questão da segurança pública é o aumento de pena. Por que não pensamos nisso antes? Será que algum especialista em segurança pública deu essa dica de mão beijada ou ele chegou a essa conclusão sozinho?
O jornal faz então a pergunta mais difícil e levanta a bola para o “grand finale”: “De que modo a esquerda poderia ampliar sua votação já em 2026?”. Anotem o gabarito revelado por Jessé: “denunciar e nomear o inimigo real que deixa o eleitor mais pobre, quem o explora.” “A esquerda precisa encontrar narrativa própria”. Ou seja, a chave da ressurreição da esquerda, que jaz em uma cama, feito Bela Adormecida, é tascar um bom xaveco narrativo no povão. De preferência, é bom fazer isso o quanto antes. Afinal, Jessé, o profeta, já havia vaticinado em entrevista anterior que, como a “esquerda desistiu de lutar”, “isso aqui vai virar um Irã, uma Turquia”— sim, Jessé converteu a Turquia ao regime dos aiatolás.
Essa receita infalível é a pior parte da entrevista, aquela em que Jessé veste-se de coach de comunicação e propõe o proselitismo como principal arma para convencer o eleitor. Não é agenda. Esqueçam isso. É o discurso, estúpidos! Bastam ideias alinhadas e conceitos balanceados, como pneus de um carro. É o padrão discursivo água mole em pedra dura.
Se há um conselho de que a esquerda não precisa, é deste. Ao contrário. Uma parte da esquerda já faz isso de sobra. Essa esquerda púlpito vai bem, obrigado. É pródiga em proferir discursos proclamatórios, ao estilo Odorico Paraguaçu, com a alma lavada e enxaguada, e acha, como Jessé, que propaganda é a arte de repetir mantras.
“Uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos” (Jessé Souza)
Jessé arremata com seu pós-iluminismo hegeliano: “A esquerda pode e deve disputar esse voto, mas para isso precisa se dedicar a esclarecer esse eleitor, a investir em sua transformação pelas ideias”.
Dias depois (1° de janeiro), em um artigo no ICL, Jessé bradou que “uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos”.
Tenho a séria desconfiança de que Jessé é a reencarnação de Aristides Lobo, autor da célebre frase sobre a Proclamação da República: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”.
Se for para fazer um apelo ao além, que Deus nos livre de ideias desse tipo para ressuscitar a esquerda. Elas estão mais para palpite infeliz.
Antonio Lassance é doutor em ciência política e autor do livro Instituições, Estado e Políticas Públicas, entre outros.