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Livro: Pensando a longo prazo por Wladimir Pomar

Prefácio do livro

Como comentarista do Correio da Cidadania escrevi, entre junho de 2016 e abril de 2017, uma série de artigos – na verdade, ao todo, 33 – sob o título geral de Pensando a Longo Prazo, de crítica ao livro A Tolice da Inteligência Brasileira, de autoria do sociólogo Jessé de Souza.

Como afirmei no primeiro dos artigos, o lançamento daquele livro ocorreu “quase no momento em que a maioria do Congresso Nacional deu uma demonstração inequívoca do nível cultural predominante na elite política brasileira”. Aquela maioria, com o processo de impedimento contra a presidenta Dilma, colocou o Brasil diante não só de uma “guinada conservadora”, mas também de um caminho que tendia desembocar num reacionarismo político perigoso. O que, afinal, se materializou com a vitória eleitoral da proposta fascista de Bolsonaro em 2018.

O que me levou a escrever os comentários críticos não foi a pretensão do autor em apresentar “uma abordagem teórica e histórica inédita”. Ou sua intenção de oferecer “um caminho para devolver ao povo brasileiro a possibilidade de entender as reais contradições de nossa sociedade”. Ou, ainda, sua afirmação de que brindaria os leitores com afirmações e avaliações preciosas de parte considerável da “inteligência brasileira” a respeito da “corrupção e ineficiência estatal”, contrapostas à “virtude e eficiência do mercado”.

O que verdadeiramente me incentivou a elaborar textos críticos à A Tolice da Inteligência Brasileira foi a evidente contradição de que tal texto, do ponto de vista político, embora se encontrasse nas fileiras daqueles que combatiam a guinada conservadora e reacionária, expunha afirmações e conceitos que, vistos numa perspectiva
de longo prazo e do futuro da luta de classes sociais no Brasil, causavam inúmeras confusões teóricas e mereciam uma crítica mais fundamentada.

Por um lado, A Tolice da Inteligência Brasileira se insurge contra o que denomina “economicismo” liberal e marxista. E, como opção contrária a tal “economicismo”, sugere que a sociedade brasileira escolha entre um capitalismo abastado e um capitalismo atrasado para colocar em prática um “projeto histórico inclusivo” que permita ao Brasil dar continuidade à industrialização iniciada por Vargas, assim como ao processo “reformador”, mesmo limitado, dos governos Lula e Dilma.

Ou seja, desconsiderou que a “história política do Brasil moderno” também contempla outros tipos de projetos, abrangendo outras dimensões do papel do Capital e do Estado, na perspectiva de romper os limites do conservadorismo, ampliar o desenvolvimento das forças produtivas industriais e agrícolas do ponto de vista científico e tecnológico e disseminar a inclusão social e os direitos democráticos na sociedade brasileira.

Além dessas lacunas, A Tolice da Inteligência Brasileira também apresenta um entendimento confuso a respeito do “poder político” ou do “Estado”. Supõe que, a partir da eleição de Lula como presidente, esse instrumento, ao mesmo tempo político, militar, social e econômico, teria sido conquistado pelo PT.

Aliás, surpreendentemente, tal suposição não é muito diferente do que pensam muitos adeptos do bolsonarismo. Dessa maneira, confunde governo, um dos componentes do Estado, com o poder político
real. Em outras palavras, o PT se limitou a estar à frente do governo, nem sempre o principal instrumento do aparato de Estado que foi construído e reconstruído pelas classes que, há séculos, se revezam no domínio da sociedade brasileira.

Em tais condições, ao contrário do que supõe A Tolice da Inteligência Brasileira, para tornar o Brasil um país econômica, social e democraticamente desenvolvido, é indispensável colocar todos os aparatos do Estado, ou do poder político, a serviço do povo brasileiro e não da minoria que o comanda e o dirige em função de seus interesses de classe.

Como todos esses assuntos voltaram à baila, seja com a vitória eleitoral da extrema-direita, seja com a demora da esquerda democrática e popular em reconhecer seus erros estratégicos e táticos (muitos dos quais influenciados pelas teses de A Tolice da Inteligência Brasileira), achei conveniente a sugestão de reunir e republicar os artigos críticos relacionados a ela.

]Assim, sempre resta a esperança de que contribuam, de algum modo, para a crítica aos erros que levaram à derrota da esquerda diante do bolsonarismo, assim como para a elaboração de uma nova estratégia que livre o povo brasileiro de um retrocesso histórico tão ou mais doloroso do que os que foi obrigado a suportar no passado.

Wladimir Pomar

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