Um espaço para contribuir com o PT no debate sobre temas da conjuntura.

Entrevista com Romênio Pereira

A bancada do Manifesto Petista veiculou, em 24 de fevereiro, a primeira de uma série de entrevistas que fará com os candidatos e candidatas à presidência nacional do Partido dos Trabalhadores. O entrevistado durante a live Segunda Quente foi Romênio Pereira, da tendência petista Movimento PT. A seguir, a transcrição da entrevista:

Valter Pomar: Boa noite a todas, boa noite a todos. Estamos em mais uma edição do Manifesto Petista, uma Segunda Quente do Manifesto Petista. Como vocês sabem, esse blog foi criado há vários anos com o objetivo de ser um espaço para travar debates que são de interesse do conjunto do Partido dos Trabalhadores.
E o Partido dos Trabalhadores realiza, neste ano de 2025, uma eleição direta das direções partidárias em todos os níveis: nacional, estados e municípios. Poderão participar desse processo todos os filiados, todas as filiadas ao PT até o dia 28 de fevereiro deste ano. Poderão votar no dia 6 de julho.
E, a partir do dia 10 de março, começa o processo de inscrição das chapas e candidaturas nacionais. No dia 11, chapas e candidaturas estaduais. E, no dia 12, começa o processo de inscrição de chapas e candidaturas municipais.
Nós vamos entrevistar aqui no Manifesto Petista todas as candidaturas presidenciais que se inscreverem. E vamos buscar também abrir espaço para todas as chapas que se inscreverem, pelo menos, em âmbito nacional. E, no caso da presidência nacional, no dia 7 de dezembro do ano passado, já houve uma inscrição de candidatura. No caso, a do Romênio Pereira, que é hoje secretário de Relações Internacionais do PT. Então, nós iniciamos com o Romênio Pereira a série de entrevistas que faremos com todas as candidaturas que vierem a se inscrever. Será uma dinâmica um pouco diferente daquela que você que acompanha o Manifesto Petista está habituado a ver.
Normalmente, a gente abre a palavra para o convidado para que ele fale durante 20 minutos, mais ou menos, e, em seguida, há comentários e perguntas da bancada. No dia de hoje, faremos um pouco diferente. Nós combinamos entre os integrantes da bancada.
Aqui já estamos eu mesmo, Walter Pomar, José Genoino, Maria Carlotto e Rita Camacho. Deve entrar a qualquer momento o nosso companheiro Douglas. Nós combinamos uma série de questões e eu vou simplesmente abrir e fazer a primeira questão.
O Romênio vai respondendo no tempo que ele julgar necessário cada uma das questões e, no final, a gente devolve a palavra para ele pontualmente antes das 10 horas para fazer as suas considerações finais. Portanto, hoje será mais uma entrevista mesmo. Então, Romênio Pereira, seja bem-vindo aqui ao nosso Manifesto Petista e, como eu expliquei, me cabe fazer a primeira pergunta, que é pedir que você nos conte de maneira bastante resumida a sua trajetória pessoal como militante.
Quer dizer, quem é Romênio Pereira? De onde ele veio? Como ele se tornou dirigente do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras? Romênio, a palavra é sua.

Romênio Pereira: Walter, primeiro eu quero cumprimentar o Genoino, com quem eu tive o prazer de dividir uma executiva nacional, a Rita, a Maria Carlotto, você e o Douglas. Olha, eu faço agora, Valter, no início de abril, 45 anos que eu estou filiado ao PT.
Eu fui candidato a vereador numa cidade que chama Patos de Minas, uma cidade importante no interior de Minas, em 1982. Então, a primeira eleição que o partido disputou, eu fui candidato aos 21 anos de idade. Montamos uma chapa com candidato a prefeito, vice, e lá fui candidato a vereador.
Mas a minha militância começou através das comunidades eclesiais de base. E ali eu passei pelo movimento cultural, fui para o partido, sou um dos fundadores do PT de Patos de Minas, e, também, ocupei espaços como secretário-geral, vice-presidente do PT de Minas Gerais, sendo, inclusive, assumindo a presidência por um ano quando houve o afastamento do presidente que ocupava naquele momento. Então, sou militante.
O PT comemorou agora 45, dia 10 de fevereiro, e eu estou comemorando 45 anos de filiado ao PT, agora, dia 2 de abril. Então, é um militante que eu posso, se vocês me permitem, ainda com rosto jovem, mas com 45 anos de PT.

Rita Camacho: Boa noite, Romênio, e a todos e todas. Romênio, a sua biografia que consta no site do Partido dos Trabalhadores fala numa militância sindical. Então, eu queria entender o que foi essa militância, essa sua experiência no movimento sindical, embora você fosse tão jovem quando foi candidato a vereador e tal, eu queria entender se você teve a oportunidade de trabalhar antes disso, como é que é sua trajetória laboral também, por favor?

Romênio: Rita, é uma alegria, um prazer enorme falar com você. Eu, além da militância que veio através da minha relação com a Igreja Católica, eu fui presidente da União dos Estudantes Patense, aos 19 anos de idade, e fui funcionário da Companhia de Saneamento de Minas Gerais, que tem o nome de Copasa.
Fiz um concurso, passei e fui para Belo Horizonte. E lá eu comecei a minha militância na oposição sindical da Copasa. Tinha uma diretoria pelega e eu fui para a oposição, tanto que eu cheguei a ser demitido dessa empresa por ser uma das lideranças da oposição sindical.
Depois, através da justiça, consegui meu retorno a essa empresa, mas continuei militando na oposição sindical, mas fui comunicado um dia, pelo meu chefe direto, que eu não teria oportunidade de crescer na empresa. Foi quando eu tomei uma decisão de sair da empresa e procurar outros espaços da minha vida. Então, eu militei na oposição sindical nessa empresa de saneamento em Minas Gerais.

Maria Carlotto: Romênio, obrigada. É muito interessante te ouvir. O Partido dos Trabalhadores é um dos maiores partidos de esquerda. Talvez o maior da América Latina e, sem dúvida, um dos maiores do mundo. A minha pergunta para você é por que você quer presidir o Partido dos Trabalhadores?

Romênio: Olha, Maria, eu já ocupei vários espaços na minha militância política. Como eu disse, eu fui o fundador do PT em Patos, fui o primeiro secretário, ocupei espaços na militância do PT e o Valter me conhece talvez um pouco nessa história, mas o Genoino conhece um pouco.
Eu visitei em Minas Gerais, que é um estado razoavelmente grande em termos de municípios, mais de 650 cidades. Então, eu fazia, toda semana, uma média de 18 a 20 cidades construindo o PT. Tanto que acabei ganhando um apelido, Maria, o Rei dos Grotões, porque eu nunca tive… Muito dirigente nacional gosta de ir para os grandes centros.
Eu, ao contrário, eu gosto, ainda faço isso hoje, eu conheço os 27 estados da federação e, quando eu chego numa cidade, eu gosto de ir para o interior, gosto de militar com aqueles companheiros que estão no interior. Tanto que, em campanhas presidenciais, tanto do presidente Lula como da presidenta Dilma, eu coordenei por duas ou três vezes a campanha dos pequenos municípios brasileiros. Só para você ter uma ideia, Maria, nós temos em torno de 4.900 municípios abaixo de 30 mil habitantes.
Então, assim, eu acho que eu tenho uma história na militância que eu já descrevi aqui, conheço muito o PT e eu tenho uma relação muito próxima com todas as forças políticas que tem dentro do PT. Eu até brinco muito que eu sou uma pessoa que dentro do PT, Genoino, eu ando muito em cima do muro. Porque, se algum dia eu tiver uma posição considerada um pouco mais conservadora, as pessoas vão me entender.
E, às vezes, outras situações, eu tenho uma posição muito mais à esquerda. Então, assim, eu acho que eu sou… vou fazer 65 anos, talvez, assim, me permita, mas talvez eu seja uma das pessoas que mais conhece o PT do país. E, aí, eu queria, há pouco, há 20 dias atrás, Maria, eu tive uma reunião de 30 a 40 minutos com o presidente Lula.
E ele mesmo reconheceu que, quando precisa de um dirigente que conheça o PT nos 27 estados da federação, eu sou um dos poucos que conheço. Então, eu acho que eu estou preparado para presidir o PT, acho que tenho condições de dialogar com vários setores. E eu acho que é o momento de apresentar uma candidatura que contraponha, talvez, o candidato que está sendo indicado pela CNB.
E a minha força política que eu coordeno, que é o Movimento PT, que hoje representa a segunda maior força dentro do Diretório Nacional, aprovou por unanimidade o meu nome. E eu estou tentando construir esse nome com outras forças políticas. E, até o presente momento, eu tenho tido um certo sucesso.

Douglas Martins: Boa noite, Romênio. Prazer falar contigo. Romênio, eu queria fazer uma pergunta mais da dinâmica interna, da democracia interna do PT para a tua avaliação. Como é que você avalia a política das eleições, das direções do partido, sem a convocação do instrumento fundamental da nossa história, que são os congressos?

Romênio: Douglas, é um grande prazer falar com você. Como eu disse há pouco, respondendo à Maria, eu coordeno, junto com outros companheiros e companheiras, o Movimento PT. E o Movimento PT, hoje, Douglas, tem 11 votos no Diretório Nacional.
Nós presidimos cinco diretórios regionais. Então, é uma força representativa no Estado. E eu tenho uma opinião, e externei na última reunião do Diretório Nacional, eu sou 100% a favor do Congresso. Mas eu não posso levar uma opinião que é a minha. Eu tenho que consultar aquele campo político que eu coordeno. E eu, assim, consultei. E houve uma ampla maioria, em torno de 70% das pessoas consultadas, que nós deveríamos fazer opção pela eleição direta. Eu acho despolitizado. Porque você já chega no Congresso, Douglas, com pouco debate político. E você, praticamente, já vai para um encontro nacional do PT, já, praticamente, com os espaços acertados, e não permite, na minha opinião, que campos políticos internos dentro do PT, talvez por pequenos, ou até por diferenças maiores, possam se unir dentro de um Congresso Nacional. Então, eu acho que, se dependesse da minha vontade pessoal, eu gostaria que tivesse sido aprovado o Congresso. Mas eu não posso, e nunca fiz assim, eu consulto as pessoas sobre as decisões a serem tomadas, e por volta de 70% das pessoas fizeram opção pelo voto direto. Eu expliquei isso na direção nacional e encaminhei a decisão da maioria do campo político que eu coordeno.

Maria: Romênio, eu queria voltar numa questão que você mencionou, aí, bem rapidamente. Você, bom, a CNB é a maior força no Diretório Nacional, vocês são a segunda maior força. E você disse que pode, a sua candidatura se contrapõe ao candidato que a CNB está colocando. Eu queria que você desenvolvesse melhor essa ideia para quem está nos ouvindo entender. Por que você acha importante ter uma candidatura que se contraponha à força majoritária e/ou especificamente a esse candidato?

Romênio: Maria, eu acho que, talvez, a minha candidatura fosse uma das últimas a serem lançadas. Eu gostaria que outros campos políticos, e se o meu amigo, meu grande companheiro Valter Pomar, que está aqui nessa entrevista, que talvez tenha sido uma das principais lideranças a se opor e se contrapor às opiniões do campo majoritário da CNB, eu espero que, ou ele, ou alguém que esse campo que ele participa, possa ter uma candidatura, de uma mulher ou de um homem. Então, nós fizemos essa opção por ter uma candidatura. E por que a minha candidatura está colocada? E aqui eu quero externar um pouco o processo das últimas eleições municipais.
Nós, Maria, fomos uma das poucas forças políticas que, por exemplo, defendemos 6% do fundo eleitoral para os setoriais. Uma das poucas. Talvez, na minha história dentro do PT, foi uma das maiores derrotas que eu tive.
E eu achei muito estranha essa derrota. Porque o nosso Partido foi construído justamente desses… Podemos ter crítica a um setorial A, B ou C, mas o nosso partido foi construído pelas pessoas de combate ao racismo, da juventude, LGBTQIA+, etc., etc., sindical. Mas nós tivemos 3%.
Por outro lado, eu acho que o fundo eleitoral não é um dinheiro que deve ser destinado só a pedido da bancada federal. Eu também fui um dos poucos, junto com o campo que eu coordeno, que defendi que os deputados estaduais e as deputadas estaduais também tivessem a sua opinião para que pudesse ter destinação desse recurso do fundo eleitoral. Então, assim, a nossa candidatura, ela vem a buscar um pouco, na minha opinião, lógico que ela ainda tem um processo de construção, porque hoje só tem um candidato. Sou eu. Porque a CNB tem um candidato que, se a gente for fazer uma consulta mais profunda dentro da CNB, há uma divisão enorme. Então, com certeza, a CNB terá candidato.
E eu espero que, se não todas as forças políticas que existem dentro do PT, mas na sua maioria, possa lançar nome de mulheres e de homens para que a gente possa fazer um grande debate no PT. Eu estou muito preocupado, porque acho que a nossa situação hoje da disputa eleitoral é uma situação dificílima. Eu, outro dia, dei uma entrevista e disse que nós ganhamos pela esquerda e estamos governando pelo centro.
Porque vocês estão observando, aí, a possibilidade de o Partido dos Trabalhadores das Trabalhadoras perder espaço no governo federal. Então, assim, esse é um debate que eu gostaria de fazer. Eu acho que o PT, eu acho que você, ou foi a Rita, que diz o seguinte, nós somos, na minha opinião, nós somos um dos principais partidos de esquerda do mundo.
E isso o Valter, que foi secretário internacional, que é o diretor internacional da Fundação, sabe disso, tanto como eu, ou até melhor. E nós precisamos puxar o PT, mesmo eu fazendo aquela brincadeira que a minha posição interna dentro do PT, às vezes, é muito de fazer um campo ali, de dialogar com as nossas forças, mas eu, Genoino, eu acho que o PT precisa dar dois passos à esquerda. E eu acho que dar dois passos à esquerda é fazer um debate mais forte em relação ao governo e mais forte o caminho do PT.
Porque não só eu, mas outros, não teremos muito à frente o papel de direção do PT, como não vamos ter o presidente Lula como candidato a vida toda. Então, nós precisamos voltar o caminho que levou o PT a ser criado. E a minha candidatura, você pode ter certeza, vai ser uma candidatura, eu tenho brincado, mas eu tenho falado, vai ser uma candidatura que muitos, talvez vai até assustar, mas é um pouco uma candidatura que vai puxar um diálogo mais à esquerda para o PT.

Rita: Romênio, aproveitando o que você está falando a respeito do governo, como você entende que tem que ser essa relação do PT com o governo Lula? O que você mudaria em relação ao que a gente está tendo hoje?

Romênio: Ô, Rita, eu costumo dizer que quem ganha tem que ajudar a governar. E ajudar a governar é ocupar espaços. Mas eu vou dar alguns dados que eu acho que todos vocês, tanto as companheiras que estão aqui como os companheiros sabem.
Nós temos hoje, Genoino, 11 ministros e ministras, se eu não estou enganado, que são filiados ao PT. Nove são filiados à CNB, tem relação política com a CNB. Um, eu não sei se tem relação com algum campo político.
E só o companheiro Paulo Teixeira, que é da Resistência Socialista. Quando você vai para dentro do PT, Rita, a CNB tem 46%. Então, assim, na minha opinião, o próprio partido não ocupa esse espaço que eu acho que deveria ter mais força.
Nisto, o presidente Lula, no seu primeiro governo, buscou atender praticamente quais fossem as forças políticas do seu governo. É verdade que a única que não participou foi a que eu coordeno. Eu comentei isso com ele.
Não sei por que, mas estava lá representado da articulação esquerda, da DS e de outras forças à esquerda. A única que não teve ministério foi justamente o nosso. Mas nem por isso deixamos de defender o governo como não deixamos agora.
O que eu acho que o governo, nessa reforma ministerial, e eu já disse isso publicamente em dois jornais de grande circulação, eu gostaria que não só o PT, mas os partidos de esquerda e progressistas tivessem mais espaço no governo. Mas parece que não será isso que vai acontecer na reforma ministerial e eu acho isso um erro, porque nós vamos ficar cada vez mais refém do centrão e isso não é bom nem para o nosso governo nem para aquele eleitor e eleitora que nos colocou de volta para comandar o país.

Rita: Como você acha que o PT pode atuar contra isso, então?

Romênio: Olha, nós… Nós, assim… Eu tive a oportunidade de expor isso, Rita, em algumas reuniões do Diretório Nacional e até parece que não está sendo muito bem ouvido.
E, também, coloquei isso, tive essa oportunidade de externar essa minha opinião ao presidente e vários ministros com quem eu conversei. Falei isso para vários deputados, vários senadores. Então, essa é a minha opinião. Acho que o PT, não só o PT, por exemplo, eu… Por que o PCdoB não pode ter dois ministérios? Por que o PV não tem um ministério? Está na federação, por que o PV não pode ter um ministério? Por que nós vamos ceder mais? Porque o que se fala hoje é que a SRI, que é comandada pelo ministro Alexandre Padilha, pode ir para o MDB. Entendeu? E se… Vamos pegar o tamanho do MDB dentro da Câmara Federal? É pequeno. No Senado, não. Mas na Câmara Federal é pequeno. Então assim, eu sinto que o nosso partido e outros partidos do campo democrático popular estão perdendo espaço para os partidos de centro. Eu vejo isso com muita preocupação e gostaria que isso não acontecesse na reforma. Mas a reforma, naturalmente, é do presidente Lula.

Maria: Romênio, eu fiquei aqui a cargo de ler as perguntas do chat do YouTube. Então, duas perguntas para você que acabaram de chegar a partir das tuas colocações. Uma é a da Zilda Araújo. Na verdade, eu vou começar pela segunda, que é do Fábio Rosa, que tem a ver com isso que você estava acabando de comentar. Fábio Rosa pergunta o seguinte: “Qual é a avaliação que Romênio faz da frente ampla? Tem sido mais exitosa ou problemática para os objetivos estratégicos do PT? Para 2026, o partido deve manter a tática ou reavaliar o rumo?” Isso é o Fábio Rosa.
E a Zilda Araújo pergunta o seguinte: “Mais um candidato que defende o PT ao centro, o que diferencia do Edinho?” Ela perguntou isso provavelmente antes de você dizer que estava postulando uma candidatura para o PT à esquerda. Então, eu queria que você comentasse isso, porque eu li alguns textos que lançavam a sua candidatura à presidência e outras candidaturas do Movimento PT para presidências estaduais e elas defendiam este giro ao centro. E hoje você trouxe para nós uma outra abordagem.
Então, comentando todas essas perguntas, eu acho que eu poderia sintetizar. A sua candidatura defende um PT ao centro e, portanto, a tática da frente ampla, ou um PT à esquerda?

Romênio: Não, eu defendo que a gente precisa construir um processo para reeleger o presidente Lula. Porque, caso a gente não consiga uma nova eleição para o presidente Lula, nós vamos ter a volta da direita ou da extrema-direita.
Eu participei, Maria, do último congresso do SPD na Alemanha e lá eu vi vários debates e saí de lá com o sentimento que poderia acontecer o que aconteceu ontem na Alemanha. Então, o PT tem um papel, na minha opinião, de puxar o debate mais para o campo democrático popular, para o campo mais progressista, mais à esquerda. Mas nós sabemos que o governo hoje é um governo que, dos seus trinta e poucos ministérios, tirando alguns que são, que é o caso da ministra da Saúde, a Nísia, na sua ampla maioria dos ministros, são de partidos de centro.
Então, eu defendo que o PT mantenha a sua aliança com esses partidos, mas com um programa ainda mais progressista do que levou à eleição do presidente Lula. Eu tenho, na reunião que foi lançado, lançado não, que eu coloquei com a minha candidatura, eu disse que tinha muita gente dentro do PT falando que precisava buscar um diálogo com a Faria Lima. E eu disse que era o contrário, que a gente precisava fazer um diálogo com as comunidades que nós temos hoje em todo o país, principalmente com os trabalhadores rurais sem terras, com os pequenos proprietários, e tal. Assim, a minha candidatura, naturalmente, era um processo de construção dentro de um campo político. Se eu for para ser um candidato, igual será o candidato, quando for escolhida a CNB, não há motivo de ter uma candidatura. Da mesma forma que, provavelmente, se tiver uma candidatura de um campo, por exemplo, da Articulação de Esquerda, em alguns momentos eu vou ter divergências.
Então, isso, eu quero, nesse alinhamento, em algumas situações, concordar com a candidatura da Articulação de Esquerda, e em outras eu posso concordar com a CNB. Então, esse é o papel que o Movimento PT sempre trilhou dentro do partido, e é o que eu defendo. Agora, primeiro, Maria, eu gostaria que a minha candidatura já estivesse registrada, mas ela só vai estar registrada a partir do dia 20 de março.
Antes disso, como disse o companheiro Valter Pomar, nós vamos terminar as filiações agora, na sexta-feira. Uma coisa que, inclusive, eu estou preocupado, eu acho que está tendo filiação muito acima do papel que o partido está construindo junto à sociedade brasileira. Nós vamos ter uma surpresa, uma filiação que, na minha opinião, não leva à relação que nós temos hoje com a classe trabalhadora no nosso país, mas vamos aguardar.
Acho o que vai finalizar no dia 28. E, aí, sim, acabou essa filiação, eu vou chamar uma reunião do campo que está lançando a minha candidatura, para que a gente possa construir o manifesto e, naturalmente, lançar essa candidatura para a militância do PT. Mas eu sou a favor de uma frente ampla.
E, aí, eu não tenho, nós já tivemos candidaturas no PT, Maria, eu vou citar aqui dois nomes, do PT e o que nós apoiamos fora. Nós tivemos o Tilden Santiago, que foi nosso candidato a presidente do PT. Nós tivemos a Maria do Rosário, que foi nossa candidata a presidenta.
E nós, do Movimento PT, o Genoino lembra disso, o Valter também, quando nós apoiamos o Jilmar Tatto, foi a última vez que teve segundo turno. E, naquela época, era um momento que a gente poderia ter derrotado o candidato da CNB. Mas um setor que se coloca, na minha opinião, à esquerda das posições que eu defendo, preferiu apoiar o candidato da CNB.
Então, eu vejo que, às vezes, algumas pessoas dentro do PT vão ter novidades. Tem forças políticas que se colocam à esquerda dentro do PT que estão me dizendo que não terá candidato nessas eleições. Eu falei, mas vocês vão me apoiar? Não. Não vai, vai apoiar o candidato da CNB. Então, nós vamos aguardar que, talvez, as surpresas não serão a minha candidatura. Ela vai continuar cumprindo um papel que é aquele que eu sempre cumpri dentro do PT e que a força política que eu coordeno cumpre.
Eu acho que outras que eu gostaria que tivesse candidato, talvez, vai sair desse campo mais à esquerda para apoiar uma candidatura que hoje poderá ser lançada pela CNB.

Douglas: Romênio, considerando o cenário internacional, particularmente Venezuela, Ucrânia, Palestina e Cuba, queria te ouvir um pouco como você avalia que deva ser a orientação do PT em termos de linha para essa questão da política internacional. E, também, te ouvir, dentro desse contexto, se você avalia que, no nosso governo, Lula 3, a gente mantém as bases da política externa altiva e ativa. Particularmente, queria te ouvir também sobre a relação com a Venezuela.

Romênio: Primeiro, eu quero fazer aqui um relato que são três pessoas que dividem a área internacional do PT. Sou eu, que sou secretário internacional, o Valter, que é o diretor internacional da Fundação, e a Mônica Valente, que é a secretária executiva do Foro de São Paulo. Nós, na minha opinião, temos construído posições muito parecidas sobre alguns temas. Sobre a Venezuela, por exemplo. Tanto eu, como o Valter, como a Mônica, as nossas posições é que o governo deveria, o presidente Lula deveria ter buscado uma opinião diferente da que foi externada por ele e pelo ministro de Relações Exteriores.
É verdade que há um questionamento que muitos fazem da apresentação das atas. Nem eu, nem Valter, nem Mônica nunca colocamos isso dentro da questão do PT. Eu, por outro lado, Douglas, fui, inclusive, repreendido, inclusive publicamente, quando eu soltei uma nota, o Valter lembra, da defesa do governo de Daniel Ortega há três anos atrás. Lógico que eu acho que tem acontecido algumas questões que precisam ser reavaliadas. Mas a minha posição é que a gente deve manter a nossa relação com o campo de esquerda pelo mundo. Eu tenho viajado vários países, eu tive há dois anos atrás, eu estive no Irã, talvez tenha sido um dos poucos dirigentes do PT que esteve no Irã, eu fiquei por dez dias no Irã, e eu tive a oportunidade, nesses cinco anos que eu estou à frente da SRI, de visitar 130 embaixadores, os mais diversos possíveis.
E eu, por exemplo, a relação hoje que nós temos com o Partido da Rússia Unida, que é o partido do presidente Putin, quem tem buscado construir essa relação foi a minha pessoa, tanto que eu já estive por três vezes em Moscou construindo essa relação com o Partido da Rússia Unida. Estou indo agora em abril para participar do Congresso do Partido Comunista da Rússia. Então, eu sou daqueles que defendo que o PT pode, diferente do governo, mas não abrir mão das suas relações que ele construiu internacionalmente com os partidos de esquerda pelo mundo.
Então, o governo, em algumas situações, tem que ser colocado contra a opinião do PT ou o PT contra a opinião do governo. É o caso da Venezuela, mas eu acho que nós do Partido devemos manter a relação que a gente tradicionalmente sempre teve.

José Genoino: Romênio, é um prazer e uma honra falar contigo. O PT vai, em 2025, enfrentar um dos seus maiores desafios e, por que não dizer, encruzilhada ao longo dos seus 45 anos. Se a gente analisar, rapidamente, a política econômica do governo Lula 3, a política institucional em relação às Forças Armadas, a maneira de se relacionar com o Congresso Nacional e com as instituições do Sistema de Justiça, a maneira de se relacionar com a crise do imperialismo americano e da multipolaridade que é um elemento fundamental. Se a gente analisar a questão da pauta do povo, as políticas públicas, saúde, educação, salário mínimo, as políticas de assistência social, as políticas em relação aos interesses populares, e se a gente analisa as consequências do arcabouço fiscal que foram agravadas com o ajuste fiscal desse final de ano de 2024 para 2025, eu entendo que nós estamos no fio da navalha entre caminhar por dentro da ordem neoliberal, fazendo reformas e ajustes nela, mas por dentro dela, sem questionar o modelo financeiro, o modelo de privatização, o modelo da responsabilidade fiscal, o modelo de não enfrentar o credo neoliberal, tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista político e ideológico, como é que nós vamos enfrentar, por exemplo, uma política de industrialização do país, que é elemento central para gerar emprego, melhorar a renda, como é que nós vamos sair desse primarismo da relação do Brasil com o mundo, se nós não temos um outro modelo econômico? Portanto, eu quero te colocar, eu coloco isso, para te colocar a seguinte questão, você não acha que é necessário uma alteração na linha política do Partido, uma alteração à esquerda da linha política do Partido, nas suas formulações estratégicas e táticas, para que o Partido se coloque à altura da crise? Porque essa crise, nós não vamos enfrentá-la simplesmente indo ao centro, a gente tem que enfrentá-la com uma proposta à esquerda, com base numa estratégia, numa plataforma. Você não acha que isso seria um elemento central na disputa política do Congresso do partido, nesse ano de 2025?

Romênio: Genoino, primeiro, é uma grande alegria estar mesmo te vendo aqui pela tela, você sabe da minha admiração e do respeito que eu tenho por você. Não, Genoino, eu acho que, pelo menos eu tenho colocado para os meus companheiros e companheiras, que a nossa pré-candidatura, porque ela precisa ser registrada, a minha ideia é fazer o debate de puxar o partido para um campo mais à esquerda, porque eu estou sentindo, e já falava isso antes, para muita gente, porque como eu falo praticamente todo dia, com muitas lideranças, Douglas, Rita, então eu estou ouvindo as lideranças de pequenas cidades, lideranças do movimento social, uma crítica do caminho que o nosso governo está tomando.
E se a gente pegar em número, Genoino, quando a gente assumiu o primeiro governo, acho que em 37 ministérios, o PT tinha 23, hoje nós temos 11. E eu acho que há dois ministérios, na minha opinião, que tem uma relação mais com os movimentos sociais, que nós precisamos ter avanços, que é o Ministério do Desenvolvimento Agrário e a própria Secretaria Geral, que tem relações com os movimentos sociais. A cada dia que eu converso com lideranças dos movimentos sociais, e tenho conversado com muitos, e agora no Rio tive a oportunidade de conversar com muita gente, há uma necessidade de a gente virar esse movimento mais à esquerda.
E nós estamos vendo isso nas pesquisas, nos três governos do presidente Lula, em dez anos e um mês de governo, é o momento que o índice de desaprovação, ele é menor do que o índice de aprovação. Então, tem alguma coisa errada. E o meu receio é que quando a gente começa a falar muito para Faria Lima, começa a falar para setores médios do empresariado, para grandes empresariados, nós começamos a perder nossa base.
Eu tenho sentido que a nossa base está se distanciando da gente. E o PT tem um papel nesse ano de cumprir. Qual é o meu receio? É que a eleição, ela começa em abril, e vai ser muito destinada em nome do candidato ou da candidatura a presidente do PT.
Não sei quem será o candidato do campo, da principal força do PT, porque as informações que eu tenho ainda tem muita divisão e pode haver mudança. Mas aquelas outras forças políticas, e no qual eu defendo que a que eu coordeno se inclua nessa, puxa o partido para um debate mais à esquerda. Porque se isso não acontecer, Genoino, a minha opinião é que nós estamos trilhando para uma derrota eleitoral o ano que vem.
E nós sabemos caso a gente não vença as eleições do ano que vem, nós não vamos ter o presidente Lula em 30. E para retornar a essa luta não será muito fácil. Eu conversava há pouco agora, no sábado, com um dirigente da Frente Amplo e ele dizia, na qual derrota deles, eles voltaram para a base. Em vez deles irem falar, eles foram ouvir o que as pessoas estavam pensando. Eu acho que o PT tem que fazer isso. O PT precisa voltar as comunidades, voltar os trabalhadores rurais a ouvir o que eles estão pensando do nosso governo.
A situação hoje, na minha opinião, e as pesquisas demonstram isso, que é muito difícil. Mas, pelo que se desenha, a reforma que está para ser anunciada, provavelmente agora, logo depois do Carnaval, é que os partidos do Centrão vão ter mais espaço no governo. E nós sabemos que isso não garante apoio nas eleições do ano que vem.
Eu defendo que mantenha essa frente, mas nós estamos ouvindo várias lideranças desses partidos já sinalizando que deve ter uma outra candidatura, não representada pela extrema-direita, pelo centro, para tentar nos derrotar nas eleições. Então, eu sou daqueles que nós devemos ficar com aquilo que nos levou a construir esse partido há 45 anos. Eu sei que tem avanços importantes e, há pouco, o pronunciamento do presidente Lula, de três ou quatro minutos, onde ele fala da Farmácia Popular e do Pé de Meia.
Agora, um dos grandes problemas que eu vejo no nosso governo, Genoino, é a comunicação. Eu acho que tem muita coisa sendo feita, e muita coisa sendo feita para a população. Por exemplo, o índice de desemprego é um dos menores que nós temos na história.
Pelo menos, é a demonstração que nós estamos tendo aí. Mas o que que você sente quando você vai no supermercado? E eu vou muito, eu sou uma das pessoas que vão ao supermercado comprar. Então, as pessoas, ali na fila, reclamando.
E, aí, eu vou te contar, hoje, inclusive, uma coisa, quando eu estava vindo para Brasília, a moça que trabalha com a gente, a Juliana, ela fez um café, e o café estava muito ralo. Aí, eu falei: “Juliana, eu gosto de café muito forte”. Ela falou: “Romênio, não pode colocar muito mais pó no café, está muito caro”. Então, esse é o sentimento que eu estou vendo das pessoas. Eu fui reclamar do café que eu queria mais forte, e ela falou: “Eu fiz mais fraco porque eu faço igual na minha casa. Porque, na minha casa, se eu colocar muito pó, eu não posso tomar café a semana e toda”. Então, esse é o sentimento que eu estou vendo da população brasileira. E nós precisamos consertar isso, porque, senão, caminhamos para uma derrota eleitoral em 2026.
E eu acho que o PT, dos companheiros e as companheiras do menor município desse país ao Diretório Regional de São Paulo, que é o maior, precisa fazer uma defesa que o governo e o partido, principalmente, façam uma mudança mais forte. Porque, Genoino, para terminar, eu quero te dizer uma coisa. Governo é para quatro anos, partido é para 100 anos, ou mais.
Então, nós estamos com 45 anos, nós somos um partido jovem, é um partido vitorioso em eleições, mas eu vou te dar um exemplo só de um Estado. Nós governamos o Acre, Genoino, e você sabe disso, por 20 anos, governamos 70% das prefeituras no Acre. Já governamos a capital vários anos. Hoje, você chega no Acre, nós não temos um parlamentar estadual. Temos sete vereadores. Então, isso começa uma demonstração que uma parte da população começa a negar aquilo que a gente busca nas eleições eleitorais que é o seu voto.
Vamos pegar São Paulo. Eu não sei se aqui todos que estão aqui são de São Paulo, mas numa reunião que teve aqui da executiva com os parlamentares, você pega São Paulo, com 600 e poucas cidades, o nosso partido elegeu quatro prefeitos. E, no primeiro turno, Genoino, as três cidades que nós elegemos atingiam menos de 100 mil eleitores.
Então, assim, eu até não sei quantos candidatos a presidente terá de São Paulo, por isso que eu acho que um bom caminho para buscar uma vitória mais forte do partido, inclusive, regionalmente, é eleger um mineiro para o próximo presidente do PT nacional.

Rita: Romênio, você falava da comunicação do governo, se queixando e tal. O Lula, agora, tem um novo ministro da comunicação, enfim, esperemos que vá resolvendo. E a do PT? Como você acha que está a comunicação do PT?

Romênio: Não, eu acho que assim, a comunicação do governo, eu acho que, eu não quero jogar responsabilidade no ministro. Eu acho que a responsabilidade, eu tenho falado que assim, quando o presidente Lula pega um avião e vai fazer uma viagem, eu olho na foto, tem dez ministros próximos dele. Eu acho que ministro ou ministra do PT tem que largar o presidente para viajar e viajar outros, tem que visitar o país. Eu não sei se algum ministro já foi em Roraima. Entendeu? Se já foi no Acre, se já foi no Amapá. Eu acho que os ministros e as ministras precisam deixar o presidente Lula fazer a sua agenda, a não ser aquela que seja diretamente ligada ao que ele está anunciando, e visitar o país. Eu, inclusive, sou daqueles que defendo que a nossa agenda presidencial tem que ser menos internacional e mais nacional.
Eu gostaria de ver o presidente Lula, Rita, andando o Vale do Jequitinhonha, andando o Nordeste, andando o Norte do país, sabe? E acho importantíssima a agenda internacional. Mas nós precisamos falar com o nosso povo. E, aí, a comunicação, na minha opinião, não é só uma responsabilidade do governo, do ministro. Acho que é uma responsabilidade de todo o governo. Nós temos o presidente Lula, que busca fazer, dentro das suas limitações, fazer tudo que é possível.
Agora, no PT, eu acho que a nossa comunicação, talvez, aí, nos últimos dois anos, ela melhorou, mas ela ainda é muito tímida. E nós sabemos que hoje os nossos quase 70 parlamentares federais na Câmara, os nossos senadores e toda a bancada de deputados e deputadas estaduais, às vezes, faz muito mais divulgação dos seus mandatos do que de todo o histórico do PT e do governo. Então, acho que nós precisamos buscar todo esse universo de lideranças que nós temos no país para fazer as divulgações dos acertos do governo e mais também do encaminhamento que o partido está fazendo na transformação do nosso país. Eu acho que tanto o governo como o nosso partido precisam melhorar.
E, aí, eu também não vou jogar a responsabilidade somente na Secretaria de Comunicação do PT. Eu, como dirigente, também tenho essa responsabilidade. Por isso que eu tenho, acho que de todos estão aqui, o Genoino e o Valter, que eu tive o prazer de dividir com eles a executiva, eu acho que nós precisamos andar mais.
Eu tenho uma brincadeira que eu faço, Rita, que a gente, às vezes, tem muito revolucionário do WhatsApp. Eu acho que nós precisamos andar o país, voltar a visitar as pequenas e médias cidades, para que a gente possa dialogar com a nossa base do Partido. Até porque nós vamos perder as eleições alguma hora.
E eu acho que o que levou o PT a manter a força que ele teve, foi o impeachment contra a Dilma, a presidenta Dilma Rousseff, que ali nós fomos para a rua, nós ali criamos uma força, e depois a injustiça que cometeram contra o presidente Lula, que levou à sua prisão. Mas se a gente vier a perder uma eleição, por exemplo, ou em 26 ou em 30, nós precisamos ter um espaço para que a gente mantenha esse partido vivo. E eu acho que o ano de 2025 é o ano que nós precisamos fazer esse debate com muita profundeza, para que o PT volte com força em todos os 5.550 e poucos municípios, nos 27 estados e, também,na Direção Nacional do PT.

Rita: Ainda sobre a sua posição de dirigente, como é que você votou, acho que no dia 17 de fevereiro, quando o Partido, quando o Diretório Nacional suspendeu o limite de mandatos consecutivos, tanto mandatos parlamentares como mandatos na executiva do partido?

Romênio: Ô Rita, eu votei a favor. No dia, na minha fala, até porque as minhas opiniões são muito públicas dentro do Diretor Nacional. Eu prefiro externá-las publicamente, até para que se depois tiver questionamento, e que é natural que tenha, eu consultei mais de 300 diretórios municipais, fazendo reuniões por videoconferência, ligando para presidentes dos diretórios municipais, consultei várias lideranças regionais. E, aí, qual é a minha maior preocupação? Em muitos municípios, muitos municípios do nosso país, tem pessoas que estão no seu terceiro mandato. Se essas pessoas, sejam homens ou mulheres, deixarem de ser direção municipal, infelizmente nós não temos quem colocar no lugar. Então, isso me levou muito a tomar essa posição. Da mesma forma, as direções regionais. Eu falei com vários diretórios regionais, tem pessoas que estão no seu terceiro mandato, e que não, e ao deixar o mandato, ficam vazios.
É uma responsabilidade nossa não ter criado novas lideranças. E eu tenho uma opinião, Rita, assim, aprovar mais mandatos, por exemplo, tiveram duas situações que, na minha opinião, já foi contra a questão do estatuto. Primeiro, a questão de onde tem duas candidaturas, não tem prévias.
Aí, aprovar os dois textos. O exemplo muito claro foi o de Guarulhos. Eu, pessoalmente, não tinha opinião, eu tinha opinião de quem deveria ter sido o melhor candidato para disputa eleitoral. Se fosse por relação pessoal, talvez eu ficaria com aquele que ia perder. Mas, ali, teve isso. Depois, veio a questão dos vereadores e vereadoras, que também com a questão do terceiro mandato, foi aprovado.
E, agora, eu acho que veio a questão dos deputados federais, que muita gente defendeu que fossem separados. Então, eu não vi nenhum problema em juntar os dois processos e aprovar. E disse na reunião que a responsabilidade de manter ou não, porque na Executiva, parece que tem quatro ou cinco casos nessa situação, na Executiva Nacional, de manter ou não as pessoas na Executiva é uma responsabilidade da força política.
Eu acho que nem todos que estão nessa situação serão mantidos. Por que não querem, por questões familiares, questões pessoais, ou porque a força política acha que deve mudar. Mas eu votei a favor, também levando em consideração a opinião que eu consultei a minha força política, também, por ampla maioria, defendeu que deveria ter tomado essa decisão.

Genoino: Romênio, eu vou colocar uma questão sobre a política de aliança. A política de aliança para enfrentar a extrema-direita não é ir ao centro. A política de aliança para enfrentar a extrema-direita é afirmar uma alternativa de esquerda. Essa é a experiência que está se revelando nas eleições, inclusive fora do Brasil, e está se revelando também em alguns países da América Latina. Por outro lado, você tem experiência que, quando a esquerda afirma o seu perfil, como na França, como no México, e parte na Colômbia, é o melhor caminho para enfrentar a direita. Como é que você vê essa questão? A ida ao centro, em vez de você fazer aliança pontual com forças de centro, está levando o PT e o governo a ir ao centro.
Ir ao centro não é o melhor caminho para enfrentar a ofensiva da extrema-direita que está dentro de uma fase histórica da crise do capitalismo neoliberal. Como é que você vê isso?

Romênio: Genoino, primeiro eu acho que o partido mais de esquerda que tem no nosso país é o Partido dos Trabalhadores. Então, assim, eu não vejo nenhum outro partido dentro do Brasil mais à esquerda do que o nosso. Nós temos uma federação que nós estamos enfrentando muitos problemas, principalmente com o Partido Verde. Isso é público, então, eu gostaria que a gente reafirmasse um compromisso com esses partidos, que eu chamo partidos progressistas, para a reeleição do presidente Lula. Agora, nem eu, nem você, me desculpe a Rita, a Maria e o Douglas, mas nem eu, nem você, nem o Valter, imaginávamos que um dia o Geraldo Alckmin seria vice do Lula. E eu sou daqueles…

Genoino: Como eu fui crítico…

Romênio: Mas eu sou daqueles, Genoino, que a vinda do Geraldo Alckmin ajudou a ganhar as eleições. Essa eleição, você sabe, tanto como todo mundo que está nos assistindo, que nós ganhamos essa seleção por 2 milhões de votos. Uma margem muito pequena.
Eu, inclusive, ajudei a construir alianças, por exemplo, no caso do Amapá. Hoje, o governador com quem eu tenho uma boa relação, o Clésio, que já foi prefeito pelo PT, ele está no partido do Paulinho da Força Sindical. Mas é um cara que teve história com a gente.
Então, ali, a relação que eu tenho com o partido, a gente ajudou a buscar a eleição dele. E é o caso do meu estado, Genoino. Eu estou muito preocupado em Minas, porque, hoje, em Minas, a situação que está… O PT não tem candidato a governador e, pelo que eu estou observando, isso está acontecendo na maioria dos estados, inclusive em São Paulo, porque o que eu estou ouvindo de São Paulo não é uma candidatura do PT ou de uma companheira ou de um companheiro, Rita. O que está se colocando é que o Marcio França pode ser o candidato apoiado pelo PT. Se você chega no Rio, o candidato do Rio vai ser Eduardo Paes. Eu sou defensor que a gente busque construir essa aliança com partidos como esses que eu tenho citado, com lideranças como essa que eu tenho citado, para ganhar as eleições.
Agora, nós temos que reafirmar o programa mais progressista em defesa da população mais pobre do nosso país, porque ainda temos milhões de pessoas passando fome, desempregados, sem teto. Nós estamos vendo as cidades, eu falo da minha cidade, Belo Horizonte, mas eu fiquei assustado agora no Rio de Janeiro, o tanto de moradores de rua. Então, eu sou daqueles que defendo que tem que ter um programa mais progressista, mas não vejo, Genoino, não vejo que a gente ganhe as eleições só pela esquerda, por isso que eu defendo que tem que dialogar com lideranças como essas que eu citei, para que a gente busque a reeleição.
Eu tenho ouvido que o presidente Lula troca dois governadores por um senador. Essa expressão, naturalmente, é de quem acredita e está trabalhando para ser reeleito. O que nós precisamos é construir uma boa bancada de parlamentares federais, eu estou muito preocupado com isso, eu tenho visto vários estados que nós corremos o risco de diminuir a bancada.
E, aí, eu vou dizer uma coisa aqui, Genoino, que talvez, eu sei que você sabe, mas na toda chamada região amazônica, incluindo o Maranhão e o Mato Grosso, o nosso partido só tem três parlamentares federais e um senador. Então, no Norte, só o Pará que elegeu parlamentares federais. Uma companheira e um companheiro e o Beto Faro.
Então, assim, nós precisamos voltar a organizar essa base nossa porque você sabe, nos presidiu, nós já governamos a maioria desses estados. Já tivemos senadores em todos os estados do Brasil e estamos vivendo uma situação muito difícil hoje de aumentar nossa bancada federal.

Douglas: Romênio, queria te ouvir uma avaliação sua sobre a dinâmica das últimas eleições municipais, a partir, inclusive, das questões que você levanta aí, mais especificamente sobre o controle das verbas de campanha pelas bancadas federais e não pelas direções regionais e até municipais do nosso Partido. Como é que você avalia isso? Foi uma decisão acertada? Você concordaria com esse modelo para frente?

Romênio: Primeiro, eu não posso tirar minha responsabilidade que eu estava no GTE fazendo esse debate. Como estavam todas as forças políticas ou todas as chapas. Mas eu quero reforçar aqui isso está nos altos das reuniões. Nós defendemos, por exemplo, aumentar a verba para os setoriais, que os parlamentares estaduais tivessem mais recurso. O que eu acho é que nós fizemos uma avaliação errada em muitas situações que nós tivemos no país. Por exemplo, o estado de São Paulo, se eu não estou enganado, ficou com um terço do fundo eleitoral, e elegeu quatro prefeituras. Nós tivemos, em São Paulo, vereador que recebeu mais de um milhão de reais, mas teve vereador no interior de São Paulo que recebeu 70 reais. Então, assim, o que eu defendo? Eu defendo… Isso aí não é responsabilidade de uma pessoa e, no caso, eu quero dizer que eu estava lá, eu externei minhas opiniões, eu fiz críticas públicas, por exemplo, houve cidade aí que nós colocamos só numa candidatura a prefeito quase 10 milhões de reais e a candidatura teve 4,5%.
Então, erramos. Então, nós temos que fazer uma avaliação melhor e eu sou um dos que defendo que nós temos que achar meios e formas para fazer um debate sobre o fundo eleitoral. O ano que vem parece que pode chegar à casa de 800 milhões.
O que precisa, talvez, é uma participação maior das direções municipais, estaduais e nacional para fazer o uso de uma distribuição que a gente possa atender o maior número de pessoas nessas eleições.

Valter: Muito bem, nós estamos chegando no final, a gente termina às 10h, mas como teve muito movimento no chat, nós combinamos o seguinte, a Rita vai ler as questões que chegaram no chat, são umas cinco ou seis questões, e, depois, a gente passa para você, Romênio, para responder e para fazer as suas considerações finais.

Rita: Bom, a Dirce Conrado, ela está falando de Roma, está assistindo a gente de Roma, ela pergunta: “O que você pensa da direção atual do PT, do governo Dilma Rousseff e da nossa primeira-dama, Janja, e quais serão os vices?”, imagino que os vices presidentes do Partido. A Rosa está perguntando: “Como você vê a luta da escala 6×1?”. A Bel Oliveira pergunta: “Qual é a sua proposta para trazer a esquerda mais para a esquerda?”. O José Paiva, ou Jose Paiva, não sei: “Qual sua posição a respeito das intervenções nos diretórios municipais dos interiores do Brasil para receber políticos de direita para ser candidato pela sigla do PT?” A Dirce tem outra pergunta aqui: “Edinho também está na corrente da CNB, Romênio de hoje se situa em qual situação no PT?” Acho que qual corrente seria? “Como fazer um partido à esquerda se você defende a continuidade do frente amplismo do governo Lula?” O Alessandro Hipólito, um PT de base militante, acho que ele estava comentando alguma fala sua: “Mas essa ausência não reflete uma deficiência do partido em formação de novos quadros?” Outra pergunta: “Você sabia que a CNB filiou só políticos de direita no partido, segundo a estratégia equivocada, e que, em consequência disso, o PT hoje está travado no debate político?” “Como você vê a simpatia do presidente Lula à candidatura do Pacheco ao governo de Minas?”

Valter: É isso, Romênio, responda o que você achar que é o caso e te peço para fazer as considerações finais.

Romênio: Primeiro, assim, Rita, são muitas perguntas, então eu vou fazer um comentário geral. Primeiro eu quero cumprimentar a Dirce, e, aí, eu quero aproveitar e fazer um relato. Quando eu assumi a SRI, nós tínhamos em torno de 300 filiados nos núcleos internacionais. Nós estamos chegando a quase 5 mil agora. Então, entre uma das questões que eu joguei muita força, e o companheiro Valter ajudou muito, vários outros dirigentes, a Mônica ajudou, mas nós avançamos muito a presença de brasileiros e brasileiras nos núcleos internacionais. E entre algumas questões, Rita, eu coordenei, na campanha do presidente Lula, essa relação com a política internacional. E ganhamos. Entendeu? Então, assim, é uma das coisas que eu me sinto feliz, e eu acho que precisa muito ainda avançar, é a filiação de brasileiros e brasileiras na relação do PT.
Olha, eu queria dizer o seguinte. Primeiro, eu acho que a… nós vamos estar terminando agora, pelas informações que eu estou tendo, parece que é em torno de 200 a 250 mil novos filiados. É bom, é ótimo, mas eu espero que esses filiados venham para debater a política, para que venham para debater qual o caminho do PT, não qual o papel aí…, Douglas, você fez uma pergunta que é pertinente. Eu espero que muitos desses filiados que nós estamos filiando não sejam filiados que venham fazer o debate do fundo eleitoral, porque, em muitas situações, nós estamos trocando o debate da política por como destinar o fundo eleitoral. Essa é uma preocupação que todos nós devemos ter. Então, eu espero que companheiros e companheiras pelo país não estejam filiando pessoas da direita. Eu não tenho essa informação, Rita. Gostaria que não estivesse.
Segundo, eu acho que a melhor forma de trazer o PT pela esquerda é continuar com a sua relação forte com os movimentos sociais. Eu estava no palanque agora do aniversário do PT e teve uma pessoa que comentou assim comigo: “É, o movimento sindical está em uma situação muito difícil”. Difícil? Está extremamente difícil. Nós precisamos construir formas de buscar o movimento sindical, trabalhadores e trabalhadoras para que venham relacionar com o nosso partido.
Da mesma forma, o pessoal da cultura, o pessoal que defende o meio ambiente. Então, eu espero que esse momento que nós estamos vivendo… E aí, Valter, eu quero te agradecer aqui publicamente você estar abrindo esse espaço. É um espaço que eu respeito, é um espaço… É a primeira pessoa que está vindo aqui fazer essa declaração e acho que todos nós que defendemos este partido, que tem um valor enorme no país e internacionalmente, temos uma responsabilidade de buscar ele para aquilo que nos levou a criar ele: o nosso compromisso com a classe trabalhadora do nosso país. E esse vai ser um dos meus termos. Em algumas situações, eu não tenho a menor dificuldade. Por exemplo, no meu estado. Aí eu termino, Rita. Eu quero derrotar o Zema. Gostaria que fosse um candidato do PT. Entendeu? Ou uma candidata do PT. Mas tudo indica que será um candidato de um partido que hoje compõe o centro da política brasileira. Eu até acho que o ex-presidente do Senado não será candidato. Eu acho que ele vem. Agora, se tiver uma candidatura que derrote a direita do meu Estado, porque, qual é a situação que nós teremos? Nós podemos ter em Minas Gerais um único Estado que nas últimas eleições, Maria, ganhou as eleições do presidente Lula. No centro, centro-oeste, sul e sudeste. Nós podemos ter o senador Cleitinho, governador, ou o Nicolas. Então, eu sou daqueles assim. Eu gostaria que tenha uma candidatura com muita força pela esquerda ou do PT ou de um partido. Mas não sendo, naturalmente, pela responsabilidade que eu tenho no meu Estado, eu vou ajudar a construir.
E aí, Valter, eu queria aproveitar aqui agradecer a Rita, o Genoino, o Douglas, a Maria, a você, e dizer que é o primeiro passo. Vocês estão me dando um grande espaço em dialogar com a parcela importante do PT. Provavelmente, muitas das pessoas que assistiram não concordaram e não era a minha intenção. Mas é isso. Eu acho que eu vou ter ajudar a buscar com a nossa pré-candidatura, eu só vou dizer que eu sou candidato, Rita, a hora que eu tiver o registro. Acho que não terei dificuldades. Entendeu? É buscar fazer um debate e ajudar que o PT se coloque no papel que ele levou a ser construído.
Então, agradecer e dizer que eu estaria à disposição. Quem sabe, Valter, uma outra oportunidade, foi decidido que nós teremos cinco debates de candidatos a presidentes, homens e mulheres, e dez debates de chapa. Então, acho que vai ser um momento rico para que a gente possa fazer esse debate dentro do PT e buscar um alinhamento que eu acredito que é com a classe trabalhadora, com os mais pobres desse país. Muito obrigado.

Valter: Muito obrigado a você, Romênio. Você já nominou aqui os integrantes da bancada. Também aproveitar para te dizer que na retaguarda está a Camila, que está fazendo a difusão nas redes. Agradecer a ela também. Agradecer a todo mundo que acompanhou online a transmissão, a quem vai assistir depois. E lembrar que a gente vai repetir essa entrevista com outros e outras que venham a se candidatar à presidência do PT. Nós já convidamos, inclusive, o Edinho Silva. A gente espera que ele nos dê uma data, numa segunda-feira, para a gente fazer isso que a gente fez aqui com o Romênio Pereira.
E como todo mundo pôde ver, é uma entrevista em que ele teve todo o espaço para apresentar as opiniões dele. A gente espera que isso seja útil, como ele falou, para o esclarecimento das questões que estão em jogo no PT. Então, é isso, Romênio Pereira.
Te agradecemos em nome do Manifesto Petista e boa noite a todas e a todos.

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