André Lara Resende, considerado um dos maiores macroeconomistas de sempre no Brasil, lançou uma pedra no charco no momento certo — quebrando o suposto “consenso dos economistas” e tornando a tentativa de impor um estelionato eleitoral em assunto sob debate.
Desde 26 de outubro, dia seguinte à reeleição do presidente Lula, o mercado financeiro e os liberais vinham assediando e pressionando Lula a aceitar o “tesouraço” ou “ajuste fiscal” rejeitado nas urnas, nas ruas e nas redes. O assédio atingiu proporções de sabotagem, com previsões catastróficas e ameaças de retirada de capitais do Brasil se não fosse feita a vontade do “mercado”.
A ideia seria impor o programa econômico de Flávio Bolsonaro, em versão completa ou suavizada, incluindo absurdos como cortes em programas sociais, o fim dos pisos constitucionais de Saúde e Educação ou a desvinculação de benefícios sociais do salário mínimo, e mantendo intocados os benefícios financeiros da política do Banco Central. Ou seja, uma política suicidária em que Lula se voltaria contra a sua própria base trabalhadora para beneficiar especuladores bilionários.
Lula, após uma campanha fraca no primeiro turno, foi reeleito no segundo turno contestando a ideia de “tesouraço” e defendendo os programas sociais e investimentos públicos. O presidente inclusive atualizou o valor do Bolsa Família, que estava congelado há 3 anos pela “equipe econômica” do Governo em nome de cumprir o arcabouço fiscal.
Lara Resende veio fazer um contrapeso pleno, propondo diversas coisas, entre elas um corte profundo obrigatório da taxa Selic, com uma faixa de 3% a 5,5% — propostas que devem ser lidas como uma forma de tensionar no sentido inverso ao que vinha sendo propagado nos meios de comunicação, mais do que para serem aplicadas literalmente em todos os seus termos.
Ele coloca algumas verdades fundamentais: não existe um descontrole de despesa pública no Brasil (ao contrário do que afirma a maior parte da imprensa brasileira); o défice primário está praticamente zerado (0,4% do PIB, um dos menores do mundo); o problema está nos juros estratosféricos que fazem disparar o défice nominal e a dívida pública (em benefício dos especuladores); e a solução é baixar os juros e articular a política fiscal com a política monetária para fomentar o crescimento e controlar a inflação.
O gesto desorientou a máquina de propaganda do mercado financeiro, que seguia em pleno vapor, e abriu o debate econômico sobre os rumos do próximo Governo Lula. Agora, não é mais possível dizer que são apenas “petistas” ou “esquerdistas radicais” que estão contra o “ajuste fiscal” (eufemismo para o “tesouraço”) por razões políticas. Na verdade, a estratégia econômica do tesouraço é altamente questionável e está sustentada em pressupostos científicos errados.
Nesse contexto, o espaço aberto pelo economista cria uma oportunidade que precisa ser aproveitada. É fundamental defender um projeto transformador para o Brasil, com valorização do investimento público voltado ao desenvolvimento da indústria e da tecnologia, ampliação dos programas sociais em benefício da população e o lançamento de uma nova geração de políticas públicas para responder aos problemas sociais atuais.
O consenso dos economistas no discurso do “ajuste fiscal” se desfez, revelando um terreno altamente contestado. Façamos o debate necessário e participemos dessa disputa política!
Uma resposta
Excelente texto, por transmitir um excelente chamado para contestar a narrativa em curso da especulação e dar clareza ao posicionamento do professor André Lara Rezende. Sim, que haja grande participação nessa disputa em prol da realidade.