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Entre a soberania e a subordinação: o Brasil, a China e o futuro da cooperação multilateral*

A China acompanha com atenção o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras

Os olhos do mundo, e particularmente da China, estão voltados para o Brasil, o maior país da América Latina. O destino de toda a região dependerá do segundo turno das eleições, no domingo, 25 de outubro. Uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fortaleceria a nossa soberania, a autonomia da América Latina, o multilateralismo e a cooperação entre Brasil e China, tanto no âmbito dos Brics e do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) quanto em novas iniciativas, como a Organização Mundial para a Cooperação em IA (Waico, na sigla em inglês). Uma vitória de Flávio enfraqueceria todas elas. O que está em jogo é o nosso projeto nacional.

Dois caminhos se abrem diante do Brasil, e dificilmente poderiam ser mais diferentes. De um lado está o projeto de Lula, candidato do campo democrático e popular: um programa de desenvolvimento econômico, social, ambiental e científico-tecnológico cuja marca definidora é a soberania e a autodeterminação. De outro está Flávio, o candidato do bolsonarismo e da extrema direita. Seu projeto se assenta em dois pilares: uma reprimarização radical da economia brasileira e a submissão aos Estados Unidos, a ponto de aceitar voluntariamente um status neocolonial.

Parte da elite brasileira, a identificada com Flávio, abraça como projeto nacional o retorno à dependência neocolonial. É o velho entreguismo, marca histórica das elites latino-americanas.

A disputa entre Lula e o bolsonarismo é desigual. Com Lula estão os trabalhadores, os camponeses, os estudantes, os movimentos sociais, os sindicatos, os intelectuais e artistas progressistas, as classes médias urbanas e a esquerda em geral. Com o bolsonarismo estão os grandes banqueiros (um deles, Daniel Vorcaro, preso por articular o maior crime financeiro da história do Brasil, o escândalo do Master), os grandes latifundiários do agronegócio, industriais convertidos em burguesia compradora, setores expressivos das Forças Armadas e das polícias, e grupos política e socialmente conservadores.

Mas o poder do bolsonarismo não se resume a essas forças internas. A extrema direita brasileira conta ainda com o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O tarifaço contra a economia brasileira teve por objetivo, nas palavras do próprio Trump, forçar o Brasil a libertar Jair Bolsonaro, poupando-o de cumprir sua pena de 27 anos, e ajudar o filho dele, Flávio, na eleição presidencial. Flávio tem também o respaldo das big techs, como temos observado nos últimos meses.

Por que Trump e as big techs se mobilizam tanto na eleição brasileira? Porque o projeto de Flávio subordina o Brasil aos interesses dos Estados Unidos e faz dele uma neocolônia por adesão, cujas elites escolhem a submissão. Um dos principais motivos do interesse estadunidense nesta eleição é afastar o Brasil, peça-chave da região, de sua crescente cooperação com a China.

O primeiro turno terminou com uma ligeira vantagem para Flávio sobre Lula. Mas a força de Lula reside precisamente no sentimento anti-imperialista, progressista e nacional do nosso povo. O segundo turno começou com um crescimento do apoio a Lula, impulsionado em grande parte por enormes mobilizações em todo o país, com forte participação estudantil. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22) mostra os dois candidatos empatados, com 50% dos votos válidos cada um, depois de Flávio aparecer à frente por 52% a 48% em 8 de outubro e por 51% a 49% em 15 de outubro. Por isso, tenho plena convicção de que Lula vencerá, ainda que muito provavelmente por uma margem estreita.

Há quem pergunte o que a China tem a ver com a nossa eleição. Muito mais do que parece. Brasil e China compartilham uma história de dominação colonial e dependência econômica, e uma aspiração comum à soberania e à autodeterminação, partilhada em todo o Sul Global. Os dois países estão entre os fundadores dos Brics e desde então construíram uma relação cada vez mais estreita: primeiro econômica, depois política e diplomática, e agora também cultural, fundada na amizade e na admiração mútua entre os povos brasileiro e chinês.

É por isso que esta eleição importa tanto para o futuro dos Brics. Uma vitória de Lula manteria o Brasil, membro fundador, firmemente comprometido com o aprofundamento e o avanço do grupo. Um Brasil dedicado à soberania e à autodeterminação tem todas as razões para fortalecer uma plataforma de cooperação entre países que buscam desenvolvimento com autonomia e para ajudar a construir um mundo multipolar. E defender os Brics e a cooperação com a China não significa alinhamento automático: significa autonomia, soberania e relações com todos os países, sem tutela de ninguém.

Uma vitória de Flávio apontaria na direção oposta. Um governo cujo projeto é a submissão a Washington, e cujos apoiadores querem que o Brasil se afaste da China, dificilmente poderá sustentar um papel de liderança nos Brics. Um governo assim reduziria a participação do Brasil no grupo e poderia até retirar o país do bloco. Os Brics pagariam um preço alto: a maior economia da região deixaria a mesa.

A mesma lógica vale para o Novo Banco de Desenvolvimento, a instituição financeira dos Brics e uma das expressões mais concretas do que os Brics podem construir juntos. O banco é hoje presidido por Dilma Rousseff, eleita em 2023 3 reconduzida ao cargo em 2025 para um mandato de 5 anos (até 2030). Um Brasil governado por Lula, cujo projeto é o desenvolvimento com soberania, seria um parceiro comprometido em fortalecê-lo. Um Brasil governado pelo bolsonarismo, com uma economia reprimarizada e uma política externa voltada para Washington, teria pouca razão para investir capital político em uma instituição criada pelos países dos Brics e presidida por Dilma.

O mesmo se aplica à Waico, a iniciativa liderada pela China para a cooperação internacional aberta na governança da inteligência artificial. O projeto de Lula coloca o desenvolvimento científico e tecnológico no centro, e o Brasil de Lula já integra a Waico e a fortaleceria. Um Brasil subordinado aos interesses de Washington teria pouca razão para permanecer nela e nenhuma para fortalecê-la.

Há ainda um sinal preocupante. Pesquisas de opinião recentes revelam que, embora a China seja o maior parceiro comercial do Brasil, a opinião sobre ela entre a elite econômica brasileira, incluindo os grandes latifundiários do agronegócio, se deteriorou consideravelmente, movida pelo anticomunismo arraigado e pelo sentimento pró-americano dessa elite. Uma vitória de Lula faria frente a essa corrente; uma vitória do bolsonarismo permitiria que ela definisse os rumos do Brasil, e da América Latina, pelos próximos quatro anos.

Por tudo isso é que a China está de olho no Brasil. Não apenas o nosso futuro, mas o da América Latina e o das relações da região com a China dependem desta eleição. Uma vitória de Lula fortaleceria a nossa soberania, a autonomia da América Latina e a cooperação Brasil-China. Uma vitória do bolsonarismo enfraqueceria as três.

Com a disputa empatada, cada voto conta. Até domingo, vamos às ruas e às urnas defender a soberania, o nosso projeto nacional e o futuro do Brasil elegendo o presidente Lula!

Venceremos!

* Este texto é uma versão adaptada e atualizada de artigo publicado na China pelo Sichuan International Communication Center (SICC), vinculado ao Sichuan Daily Press Group, com sede em Chengdu, província de Sichuan, China.

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