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Sobre o debate da Band: masculinidade hegemônica só é poder efetivo numa sociedade despolitizada

No dia seguinte ao debate entre Lula e o filho mais velho de Bolsonaro na Band, as redes sociais foram tomadas por uma reação que merece reflexão. Primeiro, homens e mulheres relatando um incomodo profundo, físico inclusive, com a postura do fascista no debate: ele perseguia o presidente no palco de modo intimidatório, ridicularizava, mentia muito e desconversava como quem estava acima do debate, e não implicado nele. Ato contínuo, muitas mulheres passaram a nomear a postura de Bolsonaro como típica de homens “tóxicos”, “narcísicos”, “predadores”, “abusadores”, “assediadores”, “manipuladores” que, justamente, se colocam “acima” e não “ao lado” das mulheres com quem se relacionam.

O candidato da extrema-direita brasileira é, provavelmente tudo isso e, como se já não fossem traços “normais” da sua personalidade, ainda foi treinado para exacerbá-los por ninguém menos que Pablo Marçal, inspirado diretamente em Trump que, além de tudo isso, fortes indícios sugerem ser pedófilo também, no abuso dos abusos.

Vale a pena ouvir, ao lado das análises de feministas denunciando os traços abusivos de Bolsonaro no debate, as análises que mostram o quanto aquela postura foi estudada para ser exatamente o que foi: um show de masculinidade hegemônica que tem, como objetivo puro e simples, demonstrar poder e derrotar pela força, paralisando por medo e intimidação.

Mas é preciso olhar o fenômeno na sua complexidade: não é apenas um traço perverso e individual de personalidade, é uma estrutura social de poder mobilizada com maestria por quem, a vida inteira, cresceu usufruindo do privilégio de ser homem, branco e “senhor” numa sociedade machista, racista e dominada pela lógica da superexploração do trabalho.

Sem entender que são essas estruturas que estão sendo mobilizadas, não entenderemos a o peso e a resiliência do que eles lançam contra nós. Assim como não entenderemos o potencial da reação visceral e determinada de amplas parcelas da sociedade brasileira – em especial das mulheres, do povo negro e dos trabalhadores jovens e pobres – que não aceitam mais dançar conforme a música de 500 anos de dominação brutal “dos de sempre”, da qual Flávio Bolsonaro é uma expressão horripilante. Ele nos dá medo porque o que ele mobiliza é, de fato, muito perigoso.

A masculinidade hegemônica – leiam: masculinidade dos homens brancos com recursos de poder econômico e político que se impõem pela violência – é um tema indissociável do bolsonarismo. Quando, em 2018, fomos surpreendidos pela primeira grande “onda bolsonarista”, eu fiz como vários outros cientistas sociais e mudei meu foco de pesquisa para entender aquele fenômeno. Eu estudava, na época, a democratização do ensino superior público brasileiro e seus efeitos políticos, e abandonei temporariamente meu objetivo para mergulhar no universo bolsonarista, sem saber que encontraria, rapidamente, o meu tema original de pesquisa: a democratização do ensino superior.

Comecei pelo então Twitter. Já em novembro de 2018, passei a analisar a conta atribuída a Jair Messias Bolsonaro, até chegar a um recorte analítico que incluía todas as postagens feitas um ano antes da eleição de 2018. O primeiro post da minha amostra, de 28 de outubro de 2017, fala por si. É uma republicação de Jair Bolsonaro de um post justamente de Flávio Bolsonaro, anunciando uma vitória pessoal: o debate da revogação do Regulamento Disciplinar da Política Militar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como então deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro tinha essa como sua pauta principal: flexibilizar regras e premiar policiais violentos, inclusive os que matam meninas de cinco anos com tiro de fuzil. O pai, então deputado federal, aplaudia com um dos seus jargões favoritos: “Boa guerra, garoto!”

Eles são “garotos” – moleques, como disseram alguns depois de domingo – mas estão há tempos sendo preparados para uma guerra onde a principal arma é a violência: violência física, violência psicológica, violência verbal, violência simbólica.

Na esteira dessa percepção, movi meu interesse de pesquisa para uma trincheira específica dessa “guerra”: a “guerra cultural”. Passei a cartografar esses perfis até concluir que esse universo intelectual paralelo, de Olavo de Carvalho e que tais, formava um universo quase que exclusivamente masculino. Mas dizer que são “homens” não esgota nem de longe o fenômeno. Porque não são quaisquer homens, são homens que cultivam uma masculinidade em que o grande trunfo é dominar pela força, em que a arma principal é a violência multifacetada que eles sabem mobilizar como ninguém.

Entender isso é fundamental para entender a natureza do ataque sistemático deles ao sistema de ensino, à ciência e às universidades, simbolizadas como espaços “femininos” ou “afeminados” onde a “liberdade de expressão” – na verdade, a liberdade de agressão – havia perdido lugar, para um debate mediado por regras em que todos/as devem ser tratados/as como potencialmente iguais. Mas, importante: esses “iguais” já não eram os “iguais” de sempre. É que no contexto em que o universo intelectual bolsonarista crescia, associado majoritariamente a homens brancos que passavam a dirigir blogs, revistas, produtoras, canais e escolas paralelas de todo tipo, as universidades brasileiras assistiam a uma profunda transformação estrutural com a entrada sistemática de mulheres, especialmente mulheres negras, hoje o principal grupo demográfico, pelo menos no sistema federal.

Nesse contexto, o fuzilamento de Marielle Franco – uma dessas mulheres negras que chegou na política na esteira desse processo – foi um trauma profundo porque muita gente entendeu do que se tratava: era a possibilidade real de um novo Brasil que os de sempre queriam matar, pela força das armas e do medo. Não foi por acaso que milhares de mulheres saíram às ruas gritando #elenão! Entenderam perfeitamente que o que estava acontecendo merecia uma reação coletiva das mulheres porque era contra nós que aquela força se levantava. Mas se enganaram os que acharam que era só isso, um embate de raça e de gênero: uma reação de homens brancos contra a impensável ascensão de mulheres e especialmente mulheres negras a posições de poder. Era isso, mas não era apenas isso.

A masculinidade hegemônica é hegemônica porque aciona o poder das estruturas de gênero e de raça, mas também de classe. Isso ficou evidente no último debate. O candidato da extrema-direita tentou se impor sobre Lula, tal como um animal, porque viu, nele, um “de baixo”, um “trabalhador” a quem cabe humilhar. Isso, vale dizer, ele sabe fazer bem porque foi socializado desde o berço nessa estrutura social que forjou um Brasil profundamente desigual que resiste a morrer. E, para muitos, essa violência gera o gozo de vislumbrar a possibilidade de ver essa estrutura – que confere a muitos privilégios de gênero, raça e classe – preservada e reafirmada.

Mas se eles combinaram de nos dominar, vale lembrar que nós combinamos de resistir e vencer. O Brasil que se levantou e se colocou em estado de mobilização permanente desde 5 de outubro é um Brasil profundamente politizado que, por isso, não naturaliza mais a violência e a dominação “dos de sempre”. Nesse sentido, o show de masculinidade hegemônica preparado com tanto cuidado pelos Bolsonaro e seus “parças” pode ter sido um tiro no pé. Porque o que poderia ser só incômodo físico dos que, com medo, se paralisam, foi nomeado por muitos (e muitas) que, já estando em movimento, não têm mais nada a temer, se não o correr da luta; nada a fazer, se não esquecer o medo. Por tudo isso, e muito mais, dia 25 de outubro, é 13!

Uma resposta

  1. Querida Maria!
    Parabéns pela excelente análise e reflexão sobre o tema e essa personagem que, infelizmente, ainda encontra tanto eco em nossa sociedade.

    Beijos!
    Luiz Augusto

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