Desde que saíram os resultados para as eleições a presidente da República, especialistas estão se valendo do “argumento da autoridade” para transformar em verdade absoluta que quem ganha no 1º turno, ganha também no 2º turno. Essa verdade está sendo espalhada para desanimar pessoas não acostumadas a participar de campanhas, para que elas desistam de buscar votos para o LULA, na medida em que o amigo do Vorcaro e do Adriano da Nóbrega obteve 47% e LULA 45%.
Quem participa de campanhas certamente se lembra do que ocorreu no Ceará, em 2014, na disputa ao governo: no 1º turno, Camilo Santana (PT) conseguiu 43,9% e Eunício Oliveira (PMDB) 46,4%. Diferença quase igual à de agora para presidente. Apesar do receio por terem conseguido um pouco menos do que o adversário, a campanha de Camilo Santana foi buscar os votos necessários e ele acabou eleito com 53,3% do total válido.
Acreditar na vitória
Campanha eleitoral tem de tudo. Até mesmo “instalar a dúvida” em eleitores e eleitoras de candidato que foi para o 2º turno com mais votos do que o adversário. Isso aconteceu em Caxias do Sul-RS, em 2000, na campanha à reeleição de Pepe Vargas (PT), cujo governo tinha 77% de aprovação. Por isso, a direção da campanha avaliou que ganhariam no 1º turno e, na prática, ficaram de “salto alto”: produziram pouca propaganda e pararam de pesquisar dia 7/09, por considerarem que “o quadro estava consolidado”. Isso apesar dos adversários serem dois deputados estaduais, Ivo Sartori (PMDB) e Kalil Sehbe (PDT), e haver histórico no município de disputas muito equilibradas.
Resultado: a campanha foi para o 2º turno. E, apesar de Sartori ter feito dez mil votos a menos, a campanha dele trabalhou no imaginário popular que havia vencido, por ter ocorrido o 2º turno, ou seja, Pepe fora “derrotado” porque não liquidou a fatura no 1º turno.
Acreditar em vitória no 1º turno é o bicho – nos primeiros dias após a eleição, muitos da própria campanha de Pepe acreditavam que iam perder, porque não haviam ganho no 1º turno! E trabalhar no 2º turno com o medo pesando nos ombros é pior ainda. Como motivar alguém a votar no seu candidato, se você mesmo(a) não acredita na vitória?
A necessidade de ganhar no 1º turno era real, porque no 2º turno a maior parte do eleitorado do Kalil deveria migrar para o Sartori – como de fato ocorreu. Havia uma margem para Pepe crescer, mas ela era pequena, comparada com a do Sartori. A estratégia foi divulgar o que havia sido feito, investindo em ganhar eleitoras e eleitores com as realizações do governo, junto com as propostas.
Produzimos materiais de propaganda sobre as realizações em todas as regiões do Orçamento Participativo (OP) e na Saúde (o município avançara muito nessa área na gestão de Pepe, passara a “gestão plena”), e monitoramos de perto a evolução da campanha com pesquisas.
Ganhar as pessoas, ao invés de ganhar das pessoas. E acreditar na vitória. Apesar de ter obtido a maior parte dos votos do candidato do PDT, Sartori foi superado por Pepe por pequena diferença (824 votos, em 205 mil votos válidos no total), obtida com uma campanha realmente aguerrida, na qual conseguimos superar o impacto negativo de enfrentar o segundo turno.