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Granjas de bots e a fumaça das pesquisas

“Vou votar nos três irmãos”, informou com convicção uma eleitora na semana passada, ao ser abordada durante uma panfletagem para candidatas e candidatos da Frente Democrática na região sul de Santa Catarina. A declaração chamou a atenção, porque a opção eleitoral pelo trio familiar não decorre de identidade ideológica aparente, contato pessoal – nenhum deles jamais apareceu na cidade – ou propaganda tradicional. Provavelmente resulta de propaganda subliminar, recebida por WhatsApp e/ou redes sociais. E pelo visto, mais eficaz que os métodos normais de campanha.

Desde 18 de agosto, quando o criminoso digital Fernando Cerimedo foi preso na Bolívia e parte de suas atividades em campanhas eleitorais e em governos de extrema-direita da América do Sul tornou-se conhecida, as fraudes digitais produzidas por “granjas de bots”, “fazendas de conteúdo gerado por I.A.” e “fazendas de cliques” devem ter entrado com força nas análises de risco das campanhas Lula e Haddad, que podem ser as mais prejudicadas. Afinal de contas, fraudes digitais coordenadas e em grande escala já provaram ser eficazes nas campanhas vitoriosas da extrema-direita na Argentina, Bolívia, Chile, Peru, Colômbia e Equador.

Fernando Cerimedo é argentino, da equipe de campanha de Javier Milei, e comparsa de Eduardo Bolsonaro – que lhe entregou o prêmio (com direito a beijo afetuoso) de “consultor político hispânico do ano”, da entidade Latino Wall Street (https://latinowallstreet.com/homepage), em evento em fevereiro de 2026, por coincidência realizado em Mar-a-Lago, na Flórida, mansão de Donald Trump. Cerimedo prestou serviço publicamente para a extrema-direita brasileira logo após o segundo turno de 2022, quando participou de transmissão na Internet, afirmando, estilo Trump – sem quaisquer provas –, que o resultado das urnas no Brasil havia sido fraudado.

Pesquisas distraem

Toda a fumaça produzida diariamente pelas pesquisas e respectivas “análises” pela mídia, várias vezes ao dia, distrai grande parte do eleitorado em relação ao perigo que representa para a soberania do Brasil a somatória Trump/CIA/Palantir (cujo dono, o bilionário Peter Thiel, está na Argentina)/Cerimedo/“muito dinheiro” (Vorcaro et caterva)/ mais o presidente e o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nomeados pela extrema-direita. Somos distraídos pelo debate ridículo promovido pela mídia, sobre quem subiu ou desceu nas pesquisas, nas simulações do 2º turno, das intenções de voto em Lula, com candidatos que receberão pouco mais de 1% no 1º turno. A distração (no jargão militar, “manobra diversionista”) da sociedade brasileira é fundamental para o sucesso da propaganda subliminar via redes sociais e WhatsApp, porque enquanto se discute os altos e baixos das pesquisas – e as andanças de uns e outras em jatos de criminosos – a “boiada vai passando”.

Implodir a fraude

Objetivamente, seguimos sem a destruição de “granjas de bots” e “fazendas de conteúdo” pelas polícias federal e estaduais. O máximo que temos até agora é a informação do óbvio, pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que anunciou há poucos dias, o que é público desde o início do ano: o governo dos Estados Unidos (EUA), aliado da extrema-direita do Brasil, quer eleger Flávio Bolsonaro porque, entre outros motivos, ele lhe entregará de mão beijada as terras raras. A ABIN paga salários baixos, tem carência de pessoal, e teve negada, em julho, solicitação de concurso, por falta de recursos. Ou seja, a ABIN não é páreo para a Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA, que certamente está no Brasil com muito dinheiro, sabe-se lá com quantas centenas de agentes (inclusive brasileiros) e há quanto tempo.

Trata-se agora de uma questão vital: implodir a fraude digital que pode permitir a vitória da extrema-direita nas eleições, a exemplo do que ocorreu recentemente em toda a América do Sul, ou ficar se perguntando depois onde erramos. Como cantava o poeta, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

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