A trajetória do PT é radicalmente diferente dos antigos partidos de esquerda, tanto pela amplitude dos movimentos sociais e visões ideológicas que lhe deram origem como pelas vitórias político-eleitorais que foi obtendo ao longo de seus 20 anos de existência legal.
Seu núcleo dirigente surgiu do coração do novo movimento sindical dentro de uma segunda onda de industrialização pesada na década de 70. Apesar de centrada em São Paulo, a maioria dos seus quadros em outras regiões participou, de alguma forma, de luta sindical ou social durante a ditadura e experimentou suas forças na “lenta, gradual e insegura” transição democrática. O desenvolvimento dos movimentos sociais rurais apoiou-se sobretudo nas Comunidades Eclesiais de Base e o dos trabalhadores urbanos, nas lideranças que surgiram das lutas sindicais da segunda metade dos anos 70.
O PT incorporou também, depois da anistia, intelectuais e militantes provenientes de diversas frações dos partidos de esquerda dizimados durante a ditadura, com pluralidade de visões ideológicas, mas que aceitaram um programa de socialismo democrático, tanto por demarcação com as ditaduras do socialismo real quanto, provavelmente, por uma reavaliação da sua própria experiência quando exilados. O agrupamento das tendências em campos majoritário e minoritário na direção do PT foi mudando de acordo com a força político-social de seus militantes no enfrentamento concreto da disputa pelo poder local, pelas representações parlamentares e na organização dos movimentos sociais. A CUT e, mais tarde, o MST constituíram-se como organizações autônomas de trabalhadores, além de uma infinidade de movimentos sociais urbanos.
As condições econômicas e sociais do país sofreram rápida e grave deterioração depois de 1988, sobretudo na década de 90, com a implantação crescente dos programas neoliberais. Apesar disso e do domínio esmagador da mídia que apóia o governo FHC, a expansão das vitórias eleitorais do PT, em aliança com outras forças de esquerda, foi contínua e significativa. A própria candidatura presidencial de Lula, que pregou um susto inesperado nas classes dominantes em 1989, manteve-se com cerca de 30% do eleitorado durante toda a década de 90, enfrentando uma aliança política conservadora de uma amplitude nunca vista desde a República Velha.
O desemprego maciço proveniente da desorganização da economia com a “abertura ao exterior” e a precarização das relações de trabalho atingiu fortemente as bases sociais do PT. A direção política do partido tem tido, obviamente, dificuldade em incorporar o estilhaçamento social e os movimentos fragmentários dos trabalhadores desempregados. A heterogeneidade da classe trabalhadora aumentou em todas as categorias sociais, submetidas a uma taxa de exploração e de violência social sem precedentes que leva as populações marginalizadas a um desencanto político crescente. Apesar disso o PT tem lutado em todos os fronts: do movimento dos funcionários públicos, com dificuldade de renovar-se, aos sofridos avanços dos movimentos de base em suas organizações de sem-terra, sem-teto e sem-cidadania; da luta pelos direitos humanos à luta sindical; e enfatizando, crescentemente, a questão da desnacionalização e da destruição da economia e da sociedade nacional.
Hoje o problema central do PT e das forças populares é como organizar-se para enfrentar e vencer a atual correlação de forças em que as classes dominantes, nacionais e mundiais, são esmagadoramente reacionárias. É aí que ressurge com força os problemas da “representação” e das “alianças” que vêm tirando o sono dos dirigentes socialistas desde fins do século 19. As alianças antifascistas clássicas não estão colocadas na agenda brasileira, por muito que todos os democratas, em particular os mais velhos, tenham pesadelos com os eventos recentes da Europa. O problema das alianças político-partidárias, aqui como no mundo, ficou extremamente dificultado com o deslocamento para a direita da ex-centro-esquerda nacional e da social-democracia mundial.
Quanto à agenda da esquerda e do PT, ela ressente-se não por “falta de programa”, mas por estar na verdade sobrecarregada. Desde 1988 o cumprimento de todas as tarefas incompletas da chamada “revolução democrática burguesa” ficou definitivamente na mão da esquerda. Assim a reforma agrária e as políticas públicas dirigidas à universalização dos direitos sociais estão por fazer. A própria construção de um Estado de Direito democrático, que foi uma tarefa clássica das democracias ocidentais, está requerendo uma hegemonia distinta da que vem presidindo a nossa “transição democrática apodrecida”. A “questão nacional” nos países latino-americanos ressurgiu com força, dada a subordinação crescente do nosso continente ao imperialismo, e não se assemelha à luta “nacionalista” das velhas potências nem às lutas étnicas e religiosas fundamentalistas.
Resta saber se a sociedade brasileira e o próprio PT poderão organizar-se para empreender uma vitória democrática e popular que, além de hegemonizar um amplo e diversificado espectro de forças sociais, seja capaz de promover também uma nova “Independência do Brasil”, antes que ele se torne um “domínio” completamente submetido à nova doutrina Monroe da superpotência do Norte. As propostas da “Frente de Esquerda” e de algumas personalidades com aguda consciência do problema, para enraizar-se, teriam de converter-se numa questão verdadeiramente “democrática e popular” e, portanto, incorporar as classes subordinadas em âmbito nacional. A menos que isso ocorra, os novos e os antigos “excluídos” dificilmente terão “voz e vez” nesta nossa sociedade tão escandalosamente desigual.