As observações a seguir pretendem provocar reflexões sobre nosso país e seu desenvolvimento. Estão motivadas por duas transmissões recentes da internet às quais assisti com interesse: a primeira, uma entrevista do jornalista Breno Altmann, em seu programa Ópera Mundi, com o físico brasileiro Ildo Sauer (https://www.youtube.com/live/bHHnIHxsrk4?is=oPDbXk_Tp3V_JQeg) e a segunda, da Fundação Perseu Abramo, um curso para conhecer a China, em 6 aulas com o professor Milton Pomar, destacando a trajetória daquele país para a situação recente de protagonismo mundial (https://youtu.be?LfWHbpvEzbI?is=pRQyot65nsrv-Z3m).
Ildo Sauer relembra sua trajetória no Programa Brasileiro de Energia Nuclear, o esforço inicial do Brasil, especialmente da nossa então jovem mão-de-obra especializada em formação e a construção de um arcabouço para o desenvolvimento científico do uso soberano da energia nuclear para fins pacíficos. Aborda o desmonte subsequente, a situação atual de dispersão e dificuldades criadas. Alerta para a conveniência de formularmos um projeto de nação que permita dirigir esforços em sentido coerente e eficaz.
Milton Pomar explica como a China avança em seu desenvolvimento e detém hoje índices estatísticos de expressão inquestionável que a colocam em posição de ponta na economia mundial, solucionando, passo a passo, seus entraves e dificuldades e viabilizando a melhoria das condições de vida de sua população. Ainda não assisti a todos os episódios do curso, mas vê-se que temos aí um exemplo de caminho para avançar no sentido de uma nação poderosa e soberana no mundo atual.
Abrem-se muitas questões a considerar. A primeira, ao vermos que a China elaborou seu projeto de nação e trilha por este, nos ressalta a importância de semelhante trilho para caminhar com sucesso. Não o temos no Brasil, necessitando sua formulação urgente. Nas falas de Ildo Sauer e Milton Pomar há conexões das quais vão decorrendo inúmeros pontos de reflexão, alguns dos quais elencados aqui.
Um projeto de nação parte do que somos, define o que queremos e traça os rumos possíveis e ótimos a trilhar no sentido almejado.
Quem somos? Colônia ou nação soberana? Uma colônia é conduzida, serve a seu colonizador, pauta-se por modelo externo, atua no sentido de repetir os feitos e buscar a posição de quem a conduz. Importa a cultura do outro, transveste-se para expressar os valores e condutas que lhe são trazidos de fora. Para a segunda posição é preciso saber a própria história, respeitar os próprios valores, modelar-se pela expressão de seu povo, buscar seus próprios anseios.
Na história do Brasil, a trajetória de colônia é marcada por extrema violência no sentido de ceifar o nativo, impedir a resistência, moldar a dependência, impor valores culturais, sociais, econômicos, impor a política, o modelo, a normatização da desigualdade nas condições de vida, privilegiando os objetivos de fora e beneficiando a parcela da população ligada a esses interesses, em prejuízo de todas as demais parcelas, exterminadas ou mantidas como mão-de-obra subalterna e explorada, inclusive a descendência de escravizados africanos, “página infeliz da nossa história”. Essa marca requer um esforço especial no sentido de definirmos quem somos, o manancial de nossas próprias características e riquezas, sem importação.
Se vencermos essa etapa e preenchermos as lacunas existentes, inclusive a criação de canais para expressão (a ser ouvida e incorporada) dos segmentos populacionais marginalizados, se lograrmos definir um ponto de partida autêntico e abrangente de nossa gente e nosso patrimônio, passaremos a outra etapa difícil: escolher o que queremos, definido por esse conjunto miscigenado e por nossa natureza pródiga. O que chamamos “desenvolvimento”? Atingir o conseguido pelos colonizadores? Pautar-se pelos índices reconhecidos no sistema vigente na economia mundial? Incluir-se e buscar o progresso do capitalismo em curso ou buscar uma construção socialista de igualdade e justiça social? O que nos interessa? O que nos moveria como nação soberana? O que irmanaria o povo brasileiro em seu cotidiano e em seus esforços de superação e crescimento? O que nos faria efetivamente evoluir em rumo próprio, livre de buscar enquadramento nos parâmetros de uma civilização bélica e perversa? O instituído atropelou culturas milenares e as segue atropelando. Deixou de incorporar saberes e distorceu a evolução da humanidade e o progresso dos países ao impor a prevalência da cultura “branca” sobre as demais. A ignorância que se sobrepõe exige revisão dos moldes em que nos pautamos e construímos nosso progredir. Exige uma revisão profunda. Exige vencer a dificuldade de sermos (de)formados nessa cultura distorcida. Exige ousar. Exige a coragem de abandonar as distorções vigentes, de criar novos índices e novos marcadores, de repudiar o que nos enquadra.
No exemplo da China essa questão é debatida por estudiosos e pensadores: estão os chineses promovendo um enquadramento no vigente ou criando efetivo caminho próprio? Aderindo ao capitalismo ou buscando sua expressão comunista? E o Brasil, pode encontrar caminho próprio? Pode fugir à dependência externa? Pode desprezar o modelo imposto e formular o seu próprio?
Para alcançar a resposta afirmativa, há muito a ser feito. Há que analisar nossas experiências como a da geração de energia nuclear e tantas outras, entre as quais cito a da política urbana e territorial pretendida no IIPND (1975-1979) e a criação do programa Pró-álcool, na antiga STI – Secretaria de Tecnologia Industrial, igualmente desmontadas por ingerência externa.
A ingerência externa disfarçada de “cooperações técnicas” ou “assessorias internacionais” precisam ser revistas e analisadas para identificar até onde estão a serviço dos interesses externos. Da mesma forma o intercâmbio de nossos técnicos e estudantes com universidades e outras instituições estrangeiras precisa ser pautado por interesses nacionais brasileiros, precisa de um projeto nacional para retornar ao país o investimento aplicado e dar sentido próprio, nacional, a seu desenrolar.
Entre as muitas outras questões sensíveis e significativas para abordar, cito a questão militar e a necessidade de superarmos outra página infeliz de nossa história, levando em conta a necessidade de respaldo do poder militar às decisões nacionais e à defesa de nossa soberania, livrando nossa força armada da submissão ao interesse externo e dos falsos dogmas do “perigo comunista”, da “conveniência” de unirem-se às forças norte americanas como forças “amigas”, da “segurança nacional” moldada em doutrina alheia. Um projeto nacional para ser formulado e posto em curso precisa enfrentar esta questão. Precisa valorizar a ordem e a disciplina cultivada na caserna e precisa estabelecer que o emprego da força é recurso extremo, voltado a responder a desafios externos.
É evidente que a falta de um projeto de nação vem deixando marcas na ocupação do nosso território, na prevalência de interesses de grupos, na agressão ao meio ambiente, na apropriação de terras por investidores estrangeiros, na corrida por implantar projetos nocivos, na extração dos recursos naturais de forma predatória e alheia à melhoria da qualidade de vida de brasileiros e brasileiras, especialmente de nossas crianças. É indispensável criar algo muito diferente daquilo que conhecemos e aprendemos a tolerar. Criar parâmetros distintos daqueles nos quais nos moldamos e nos pautamos.
A terceira etapa de formulação de um projeto nacional seria traçar os caminhos a percorrer entre o ponto de partida conscientemente estabelecido e o ponto almejado pelo conjunto da população – parece ser, em nosso caso, a menos difícil. Menos difícil, porque já contaria com um caminho percorrido e vencido nas duas etapas anteriores, mas não menos desafiadora para: elencar os recursos disponíveis, garantir uma vontade nacional genuína, eliminando ingerências como a estratégia de poder na dinâmica nacional, conhecida como “igrejas” evangélicas e outras ações perversas como o fornecimento de armas do exterior, a disseminação das drogas e o fomento ao tráfico das mesmas, identificar pontos comuns entre diferentes aspectos da vida nacional, como a transformação do Rio de Janeiro de “cidade maravilhosa” e “coração do meu Brasil” em foco de atuações criminosas repudiáveis e assustadoras e outras alterações na vida nacional como a transformação do futebol, a “paixão nacional” em objeto de decepção e repúdio. Acaso? De quê resultam o arrefecimento da brasilidade, a distorção de propósitos no Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, gerando enorme confusão política e nublando a visão popular do que seria e do que nos falta para ter uma sociedade de interesse comum?
É preciso ir além de discordar, repudiar e protestar contra o que está posto. É preciso construir outro mundo possível. É vital suprimir as bases, os propósitos, as estruturas e a dinâmica do mundo vigente. É preciso um projeto nacional coerente, abrangente, totalizador do Brasil que ainda temos. Não é tarefa para qualquer um. A meu ver é uma tarefa que não prescinde da capacidade das pessoas que se agrupam no que se denomina “esquerda”, devido à capacidade de estudar, de refletir, de ouvir o divergente, de integrar os que resistem, de sintetizar, de concluir e, principalmente, de almejar o Brasil melhor.
Uma resposta
Só uma correção, o Professor Ildo Sauer não é físico é engenheiro