A decisão do governo Donald Trump de considerar o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas já foi uma intervenção no processo eleitoral brasileiro. Não só pelo conteúdo da decisão mas, principalmente, pelo seu timing.
Flávio Bolsonaro, sabemos, estava nas cordas desde que áudios demonstraram suas relações íntimas e o perigosas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dragando sua campanha para o ralo da maior fraude financeira da história do país.
Para fugir de dar explicações que claramente não tinha e como ele vai com a candidatura até o fim, Flávio correu para Washington e se postou aos pés de Trump, numa foto vista por muitos como constrangedora mas, pelos Bolsonaro, como grande trunfo: de fato, só eles têm esse trânsito com a extrema-direita mundial e fizeram questão de mostrar isso no momento em que a direita brasileira começava a querer pular do barco comandado por Bolsonaro.
Mas o mais importante não foi a foto, nem os recados dados para o seu entorno.
Flávio Bolsonaro saiu do encontro dizendo basicamente duas coisas: que o convite partiu de Trump, e não foi nem corroborado nem desmentido; e que a conversa versou sobre um único ponto, o pedido ao presidente estadunidense que classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Ate aí, por incrível que pareça, o tom geral no governo (especialmente no Itamaraty) e em setores da esquerda (no PT, mas não só) era de alívio. Havia até quem vaticinasse que a química de Lula com Trump garantiu a neutralidade dos Estafos Unidos na eleição brasileira, impressão que também predominou na cobertura da grande mídia.
Ledo engano. O governo dos Estados Unidos fez questão de mostrar que estava atendendo ao pedido de Flávio Bolsonaro, mostrando ao Brasil que os Bolsonaro têm poder e têm lado, e não é nosso. Mesmo que a sequência dos fatos não tenha sido exatamente essa e que a decisão tenha seguido um curso mais autônomo, não importa. Os estadunidenses podiam fazer esse anuncio a qualquer momento, escolheram fazê-lo num timing que dava a Flávio a aura de poder e, portanto, o fortaleceu na eleição.
Mas não só isso! O timing escolhido foi, sobretudo, para retirar da pauta o que talvez tenha sido a mais importante vitória do governo Lula III: a redução da jornada de trabalho sem redução de salário e o fim da escala 6×1.
Sim: o fim da escala 6×1 foi a ação mais importante do governo Lula III. Isso porque ela ataca o coração pulsante do modelo de desenvolvimento dependente brasileiro: a superexploração do trabalho.
Para quem ainda lê o país pelas lentes do pensamento social brasileiro e não por teorias importadas do norte global, Estados Unidos à frente, essa é a lição mais importante que aprendemos sobre o nosso modelo de (sub)desenvolvimento: só é possível sustentar esse capitalismo dependente com super exploração do trabalho, o que pressupõe reprimir, cooptar, conter a organização política da classe trabalhadora, ou seja, restringir a democracia e a soberania.
Por isso, ao limitar a superexploração do trabalho, leia-se, a exploração de mais valia absoluta, abre-se espaço para forçar o capitalismo brasileiro a ter que se modernizar para conseguir extrair mais valia relativa. Não tem como fazer isso sem investimento produtivo, e não tem investimento com taxa de juros na casa de dois dígitos. Por isso, lutar contra superexploração do trabalho é lutar contra o rentismo, contra a reprimarização da economia brasileira, contra o neoliberalismo que amarra nosso crescimento como um verdadeiro grilhão de ferro.
As contradições vão de agudizando, mas é enfrentando-as que poderemos abrir caminho para o Brasil do futuro: um país soberano, democrático e desenvolvido.
O governo dos Estados Unidos não escolheu anunciar uma medida que fere nossa soberania no dia seguinte dessa enorme vitória à toa. Está intervindo diretamente na eleição para tentar impor sua pauta da segurança pública, seu candidato de extrema-direita e, principalmente, seu modelo de atraso para o Brasil, com dependência, democracia tutelada e reprimarização e rentismo.
Teremos pela frente meses interessantes, em que, mais uma vez, o Brasil estará na encruzilhada que tão bem conhecemos. À direita: atraso, dependência, autoritarismo, extrativismo, pobreza. À esquerda: desenvolvimento, soberania, democracia, direitos e bem-estar.
Não é uma escolha muito difícil, mas os inimigos do povo brasileiro são muito poderosos e só é possível vencê-los com organização, ousadia e mobilização.